Ttulo: O Brilho do Pecado.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1990.
Ttulo Original: The Glittering Lights.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
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Barbara Cartland
A mais famosa e perfeita autora de romances histricos, com 350 milhes
de livros vendidos em todo o mundo

O brilho do pecado
Cassandra vivia protegida como um pssaro de ouro. Presa ao compromisso
de ser a prometida do duque de Alchester, esperando um casamento
arranjado, sem amor nem iluses. Antes de cumprir seu destino, Cassandra
desejou provar um pouco da liberdade sonhada. Seu corao a
impelia a isso, como um desgnio da prpria
sorte. E, no salo proibido, de cortinas vermelhas
e sofs macios, ela se transformou em Sandra, a
intrigante cantora de olhos violetas...

Nova Cultural
BARBARA CARTLAND
O brilho do pecado
Ttulo original: The Glittering Lights
Copyright: (c) Barbara Cartland, 1974
Traduo: Carmita Andrade
Copyright para a lngua portuguesa: 1990
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3 andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressa na Artes Grficas Parmetro Ltda.

NOTA DA AUTORA
Os cenrios desta novela so autnticos; as descries e comentrios
sobre a linda Lily Langtry, os shows do teatro de variedades, as bonitas
coristas, os restaurantes de Londres, como o Romano's, o Rule's, o Caf
Royal, tudo enfim faz parte da histria da poca.

CAPTULO I
1886

- Cheguei, mame!
- Oh, Cassandra, eu estava to preocupada! J  muito tarde!
- Tive problema com um dos cavalos - explicou Cassandra, aproximando-se
da me na cadeira de rodas em frente  lareira.
Lady Alice Sherburn olhou para a filha e fez uma exclamao de horror.
O traje de montaria de Cassandra achava-se coberto de lama, os cabelos em
desordem e muito molhados.
- Estou s e salva, mame - disse a moa -, ainda que molhada at os
ossos. Levei um tombo e chovia muito.
- Cassandra!
- No se preocupe, mame. No foi uma queda grave e, embora eu possa
acordar um pouco dolorida amanh, no quebrei nenhum osso, tenho certeza.
- Cassandra, meu amor, se alguma coisa acontecesse a voc, eu
enlouqueceria.
- Eu sei, mame, por isso vim lhe contar que estava de volta, antes mesmo
de subir para me trocar.
- Se ao menos no fosse to irrequieta, minha filha!
- Garanto que voc e papai me detestariam se eu no passasse de um
ratinho medroso, escondido dentro da casa o dia todo, ou cavalgando em
marcha lenta.
Lady Alice sorriu.
- Jamais imaginei voc tendo medo de montar. V se pr em ordem; seu pai
precisa lhe falar.
- Ele ter de esperar um pouco, mame. Deso dentro de uma hora.
- vou dar o recado a ele - replicou lady Alice. - Cassandra, eu...
Mas a filha j corria escada acima, para seu quarto.
A empregada Hannah esperava-a e deu a mesma exclamao de horror quando a
viu.
- No comece a gritar - repreendeu-a Cassandra com um sorriso. - A culpa
foi minha. Tentei saltar um obstculo alto demais para um animal pouco
treinado, e ele recusou no ltimo instante.
- Vai quebrar o pescoo um dia desses, Cassandra. Eu julgava que, vendo
sua me na cadeira de rodas todos os dias, voc seria mais prudente. Mas
no; cavalga como se o prprio demnio a perseguisse! Algum dia ver o
que acontece.
Cassandra deu um suspiro.
Nos ltimos quinze anos lady Alice estava confinada a uma cadeira de
rodas, devido a uma queda do cavalo durante uma caada.
Surpreendentemente, esse desastre tornara o casal ainda mais unido. No
havia marido mais devotado  esposa que sir James Sherburn. A nica
tragdia foi o fato de eles no poderem mais ter filhos. Cassandra estava
com cinco anos na ocasio.
Ela transformara-se numa moa linda, viva, impulsiva, um tanto mimada,
como se esperaria da nica filha de um casal de posses.
No quarto, Hannah escovou-lhe os cabelos, que chegavam quase at a
cintura. Eram avermelhados, com reflexos de ouro, como os do pai. Ele
sempre dizia que os cabelos ruivos "corriam como vinho" na famlia
Sherburn.
Mas Cassandra tinha os olhos da me, de ascendncia irlandesa. Os ODerry
haviam sido condes na Irlanda por geraes, e falava-se que os clios
escuros sobre os olhos azuis de Cassandra provinham de um antepassado
espanhol.
A combinao de cabelos ruivos e olhos azuis fazia de Cassandra objeto de
ateno em qualquer lugar que comparecesse. E um homem precisava ser cego
para resistir ao charme de seu sorriso.
Ela era por natureza alegre, feliz, irresistvel. At os mais
conservadores perdoavam suas loucuras.
- Tive um dia maravilhoso! - declarou ela a Hannah, enquanto se banhava.
- Treinei vrios animais. Quando chegar a temporada de caa, nenhum outro
os vencer.
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Espero que voc esteja viva para ver - comentou Hannah.
Cassandra riu. Acostumara-se s brincadeiras da empregada.
com vinte anos, sentia-se muito segura. Perdera toda a timidez da
adolescncia e era consciente de seus dotes fsicos.
"Graas a Deus no vamos jantar fora hoje!", pensou ela, ao sair do
banho.
Os Sherburn moravam numa rea muito hospitaleira, cheia de gente jovem, e
excelente para caadas.
Quando Cassandra terminou de se enxugar, Hannah ajudou-a a pr um de seus
vestidos luxuosos, nos quais o pai gastava somas exorbitantes. Vinham de
Londres e causavam inveja s demais moas da mesma idade.
Contudo, seria difcil ressentir-se de Cassandra por muito tempo. Ela era
charmosa, tanto com as mulheres como com os homens, e, embora chocasse um
pouco a velha gerao por se portar mais como um homem que como uma
mulher nas caadas, ningum negava que ela havia recebido uma boa
educao.
- Obrigada, Hannah - agradeceu ela  empregada, assim que ficou pronta. -
Seja boazinha e acorde-me amanh s sete horas.
- No vai cavalgar a essa hora... - protestou a empregada.
- No quero que meus cavalos se esqueam do que lhes ensinei, e amanh
Flycatcher vai ter de saltar o obstculo, custe o que custar.
- Est desafiando o destino, Cassandra!
- Ao menos, se eu quebrar o pescoo, voc ter o consolo de dizer: "No
falei?" - caoou ela.
Cassandra foi ao encontro do pai no escritrio. Ele examinoua da cabea
aos ps, como grande conhecedor da beleza feminina.
O vestido de Cassandra era verde-folha, justo, na frente, formando atrs
anquinhas que caam em babados como uma pequena cauda.
Ela no usava jias. com sua pele de magnlia, no necessitava de
enfeites. Seus cabelos foram presos na nuca, num coque.
- Sinto muito t-lo feito esperar, papai - desculpou-se Cassandra,
oferecendo a face para que o pai a beijasse.
- Est perdoada, minha filha.
A semelhana entre pai e filha era impressionante, apesar de Cassandra
ter ossos pequenos, ser feminina, e sir James um
homem grande, bem msculo.
Ele vestia-se com uma elegncia que lhe acentuava as linhas atlticas do
fsico. As mulheres achavam-no irresistvel.
- Gostaria que voc estivesse comigo esta manh, papai exclamou
Cassandra. - Nossos cavalos so formidveis!
- Folgo muito em saber que a agradaram, filha.
- Sabe como gosto deles, e acho que vamos ter um campeo em Andora.
- Raramente erro ao escolher um cavalo para comprar murmurou sir James.
Estavam no fim de maro, mas ainda fazia frio em The Towers, a suntuosa
residncia dos Sherburn, construda no alto de uma colina, com vista
magnfica dos campos da circunvizinhana.
- Mame preocupou-se por eu chegar tarde - declarou Cassandra.
- Eu sei. Procure no a aborrecer, minha querida.
- Tento, papai. Mas Flycatcher me atirou ao cho. Precisei trein-lo
durante meia hora depois disso, para ele no pensar que poder prosseguir
desobedecendo a meus comandos.
Sir James, sentado ao lado de Cassandra junto  lareira, sorriu.
- Acho que voc agora j  to boa com cavalos como eu, e, acredite-me,
no poderia lhe conceder maior elogio.
- Concordo. Mas no foi por isso que voc quis falar comigo, papai. Que
h de novo?
Sir James hesitou por alguns segundos, depois disse calmamente:
- Recebi uma carta do duque. Esperava-a, como voc sabe. Mas, ao mesmo
tempo, receei que ele, uma vez de posse do ttulo do pai, tivesse outros
planos para seu casamento.
- Mas j faz um ano que o pai dele morreu!
- Certo. E considero quase um insulto ele no ter iniciado sua carta
com: "Agora que o perodo de luto de meu pai terminou... "
- E o que ele escreveu?
- Sugeriu vir para c um dia desses; no dia dez de abril, para ser exato.
Cassandra virou o rosto e estendeu as mos para as chamas da lareira.
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Sabe, querida - continuou ele -, sempre quis que voc
se casasse com o filho de meu velho amigo. No falamos sobre isso h
muito tempo, mas a promessa ainda permanecia em p.
-  verdade - concordou Cassandra. - No ignorava que um dia ele seria
meu marido.
- A data do casamento foi adiada porque nestes ltimos tempos tivemos
trs mortes.
- De fato, papai.
Cassandra deveria ter tido seu dbut no vero de 1884. Seria apresentada
no Buckingham Palace acompanhada por sua tia, lady Fladbury, na
impossibilidade de a me cumprir essa misso.
Mas, uma semana antes de partir de Yorkshire, o av materno de Cassandra
faleceu.
A rainha Vitria estabelecera um ano de luto para a famlia, aps a morte
de qualquer membro da nobreza.
No ano seguinte, lorde Fladbury morreu repentinamente.
- Parece que estou destinada a no ter um dbut - admitira Cassandra 
me. - Porm, isso no me preocupa, mame. com franqueza, prefiro ficar
no campo com meus amigos e meus cavalos a ficar com os membros da
nobreza, para os quais no represento muito.
- Maldio! - exclamara sir James. - E eu que desejava que voc tivesse
sua temporada em Londres para ser apresentada ao duque!
Sir James e o duque de Alchester haviam decidido, havia anos, que seus
filhos iriam se casar um com o outro.
O duque precisava de uma herdeira rica para o filho! Sua enorme
propriedade estava hipotecada e a nica sada era arranjar um casamento
rico para o herdeiro do ttulo.
- Que poderia ser melhor - comentara ele com sir James
- que sua filha e meu filho se casassem?
Cassandra tinha apenas doze anos quando viu pela primeira vez o marqus
de Charlbury, filho do duque. O pai levara-a a Eton, a fim de assistir a
uma competio de crquete.
Ela observou o jogo atentamente e constatou que o marqus de Charlbury
era o mais atraente dos competidores.
Ela ignorava que seu futuro fora planejado nesse dia por seu pai e pelo
duque.
com sua cala de flanela branca, blazer e bon azul, o marqus
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tinha aspecto muito atraente. Seus cabelos escuros e olhos cinzentos
chamavam a ateno de todas as moas.
O jovem marqus ficou logo rodeado de muitas mulheres que o elogiavam,
riam de tudo que ele falava e procuravam agrad-lo.
"Hoje ele  o heri da festa", pensou Cassandra. "Amanh talvez seja
esquecido. "
Mas ela veio a saber, atravs dos anos, que o marqus de Charlbury no
era pessoa fcil de ser esquecida.
Os jornais estavam sempre cheios de manchetes sobre o jovem.
- E se ele no gostar de mim? - perguntara ela certa vez ao pai.
- Minha querida, voc precisa entender que no mundo social os casamentos
so arranjados pelos pais, de acordo com as convenincias.
- Mas pode um casamento desse tipo ser uma unio feliz?
- Em geral, sim. Na grande maioria dos casos, as duas pessoas acabam se
amando e vivem satisfatoriamente bem.
- Foi isso que se deu com voc e mame?
- Como sempre, Cassandra, est pondo seu dedo no calcanhar-de-aquiles!
Encontrei-me com sua me por acaso, e apaixonei-me  primeira vista.
Queria me casar, porm, com a mulher que amasse de verdade.
- Em outras palavras, papai, voc, apesar de pertencer ao mesmo mundo
social que o meu, e sendo rico, no tinha inteno de se casar por
interesses outros que o amor.
- Sempre fomos francos um com o outro, Cassandra, e tenho de confessar
que essa  a pura verdade. Nunca tive inteno de abandonar minha
liberdade de homem solteiro fazendo um casamento brilhante, sem amor.
- Ouvi dizer, papai, que as mulheres corriam atrs de voc como moscas em
volta de um pote de mel.
- Voc me deixa envaidecido, filha! Por sorte, em sua me encontrei as
duas coisas: amor e classe social igual  minha.
- E no acha, papai, que eu deva ter a mesma chance de encontrar um homem
que eu ame?
- Minha filha, voc  mulher e, como tal, no pode saber o que  melhor.
Principalmente sendo rica.
- Quer dizer que os homens se casariam comigo apenas por dinheiro?
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- Os homens se casariam com voc porque  linda, inteligente e tem
personalidade. Mas, alm de tudo isso,  uma moa muito rica.
Cassandra suspirou.
- Ento, devo deixar que voc me escolha um marido, como, alis, j o
fez?
- Confie em mim, Cassandra, como sempre confiou!
- E quanto ao marqus? Sendo homem, pode escolher quem desejar, no acha?
- No! O marqus de Charlbury tem de se casar por dinheiro. No h dvida
quanto a isso. A propriedade dos Alchester est hipotecada. Por eu ser
muito amigo do duque, ele me contou que necessitava de uma pequena
fortuna para pr as coisas em ordem. A nica oportunidade que Charlbury
tem de continuar na manso de seus antepassados  casar-se com uma mulher
rica.
- Ele pode... amar... algum muito pobre...
- Isso no importa. Charlbury  um cavalheiro decente. Vai sempre dar 
esposa respeito e considerao. Nunca ouvi falar nada de mal sobre ele.
Depois dessa conversa, Cassandra percebeu que o pai planejava convidar o
marqus para uma temporada em The Towers.
Ela sempre achara estranho o rapaz nunca ter sido convidado antes, mas,
quando ficou mais velha, concluiu que tudo havia sido feito
deliberadamente.
Sir James no queria que o marqus a visse como adolescente, no to
bonita como prometia ser.
Por ocasio do dbut em Londres, os dois se encontrariam, afinal.
Contudo, os planos foram frustrados por dois lutos consecutivos.
Ento, como se o destino trabalhasse contra eles, o duque, pai do marqus
de Charlbury, faleceu em fins de 1885.
Um derrame o atingira enquanto assistia a uma corrida de cavalos, e ele
morrera vinte e quatro horas depois.
Cassandra tinha a impresso de que a cortina do palco ia se erguer, mas
que ela no sabia bem qual seria a pea a ser representada.
com a morte do duque, tudo ficou suspenso. Sir James foi para Londres a
fim de assistir ao funeral.
E assim mais um vero se passou, e sir James aguardava ansiosamente
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pela carta do novo duque de Alchester, pedindo Cassandra em
casamento.
A carta enfim chegou, um ano aps a morte do velho duque.
E era por causa dessa carta que sir James decidira conversar com a filha,
ali no escritrio, ao lado da lareira.
Um ano atrs, Cassandra teria aceitado sem refutar o pedido de casamento,
e com certeza j estaria casada quela hora.
"Mas", dizia ela a si mesma, "mudei muito nestes ltimos meses. "
Em linguagem clara: ela se tornara mulher.
com vinte anos no era mais uma debutante tola e, por ser bem mais
inteligente que as moas de sua idade, estudava com mente crtica seu
pretendente e no desejava aceit-lo somente para agradar ao pai.
Sir James notou que alguma coisa perturbava a filha e deduziu que no
falava mais com uma criana que o obedeceria sem questionar.
Porm, no houve tempo para mais conversas. O jantar foi servido.
Como era de esperar, tratava-se de uma refeio excelente, preparada por
um chef frances de fama internacional.
Havia flores decorando a mesa e frutas cultivadas em estufas. E os
trofeus de ouro, ganhos em vrias corridas por sir James, ajudavam a
enfeitar o ambiente.
- Que delcia comer tendo de cada lado as duas mulheres mais bonitas do
mundo, e saber que hoje no preciso manter conversa com pessoas pouco
interessantes - comentou sir James.
- Voc gosta de ficar sozinho conosco porque  novidade
- observou lady Alice. - Mas, se isso acontecesse todos os dias, j
estaria bocejando.
- Como pode dizer tal coisa? - Sir James beijou a mo da esposa. - Alguma
vez fiquei entediado por conversar com voc?
- No, querido, mas tomo bastante cuidado para que tenha sempre
distraes a seu redor.
E era verdade, pensou Cassandra, observando-os. Lady Alice convidava com
frequncia mulheres bonitas e atraentes para se hospedarem em The Towers.
E Cassandra se surpreendia pelo
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fato de a me no sentir cime ao ver como essas mulheres flertavam com
seu marido.
 que havia entre o casal uma compreenso mtua que enriquecia suas
vidas, e Cassandra sabia que, por mais lindas e convidativas, essas
mulheres jamais tomariam o lugar de sua me no que se referisse ao
verdadeiro amor.
Contudo, sir James tinha a reputao de um dom-juan.
- No me espanta, papai - Cassandra lhe dissera certa vez -, que as
mulheres o considerem irresistvel, porque eu tambm o acho, apesar de
ser sua filha.
- E eu lhe devolvo o mesmo elogio, Cassandra. O homem a quem voc der seu
corao a achar irresistvel!
Terminado o jantar, os trs sentaram-se no salo e conversaram por algum
tempo. Lady Alice foi a primeira a ir para a cama.
- Estou um pouco cansada - declarou Cassandra em seguida. - vou dormir
tambm.
- Pretende cavalgar amanh cedo, minha filha? Gostaria de ir com voc.
- Acho, papai, que vou a Londres - replicou ela, aps curta hesitao.
- A Londres?
- Preciso de roupas, papai.
- Claro, claro!  compreensvel. Quero que esteja linda quando Alchester
chegar.
- Espero que sim.
- Gostaria de que eu a acompanhasse?
- No, papai.  muito maante para voc andar de loja em loja. Ademais,
no ficarei por muito tempo.
- Sua tia est em nossa casa em Park Lane - disse sir James. - Ela lhe
servir de companhia.
Lady Fladbury, aps a viuvez, fora morar na casa do irmo em Londres. Era
muito conveniente para Cassandra, pois ela podia ir  capital quando bem
entendesse, e no deixava de ser interessante para a tia tambm, porque
havia ficado em situao financeira difcil depois da morte do marido.
- Tia Eleanor nunca viaja - observou Cassandra. - Sei que a encontrarei
em casa.
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- Vai levar Hannah, no? - indagou sir James.
- Naturalmente. Voc no gosta que eu viaje sozinha.
- Ento, quanto mais depressa for, melhor. E, enquanto estiver l, no se
esquea de tirar uma fotografia para ser colocada nos jornais quando seu
noivado for anunciado.
- Oh, papai, sabe que detesto fotografias!
- V ao Downey's, em Bond Street, ao mesmo artista que fotografou Lily
Langtry. Adorei a ltima foto que vi dela.
- H uma coisa que quero lhe pedir, papai. Gostaria de conhecer a sra.
Langtry.
- Mesmo?
- Ouvi muito sobre ela, sobre sua beleza e sobre a sensao que causa
quando entra no palco. Li recentemente acerca da volta dela dos Estados
Unidos. Foi aplaudida ao descer do navio por uma multido que a esperava
no cais.
- Li tambm isso, Cassandra.
- Escreva a ela uma carta de apresentao para mim, papai. Pretendo ver
seu novo show.
- Chama-se Inimigos, e est sendo levado no Prince's Theater.
- Voc j o viu, papai?
- No. Vi a pea anterior. Boa, muito boa.
- Levou-a para jantar aps o espetculo?
- No! E, j que est to curiosa, no a vejo h mais de um ano!
- r Acho que ela vai gostar de ter notcias suas. Escreva algumas
palavras de apresentao para mim, papai, por favor.
- No sei o endereo de Lily Langtry. Pea ao cocheiro que deixe a carta
no teatro. Porm, Cassandra, no sei se sua me aprovaria esse encontro
com uma atriz, mesmo sendo ela a famosa Langtry.
- Podemos resolver o problema no lhe contando nada.
- timo! - Sir James sorriu. - Gostaria que voc conhecesse Lily. Ela
deve estar agora com vinte e nove anos, pois quando a conheci tinha
apenas vinte e dois. Era a criatura mais linda do mundo!
- V ento, papai, por que quero conhec-la? Quero conversar com ela para
entender como cativou o prncipe de Gales e o prncipe Louis de
Battenburg. E tambm por que o primeiroministro Gladstone  to amigo
dela.
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- Quem andou falando com voc sobre tudo isso, Cassandra?
- Li nas revistas. E vou saber muito mais quando chegar a Londres. Tia
Eleanor est a par de todos esses falatrios.
- Sem dvida - confirmou sir James.
- Neste caso, escreva essa carta agora, papai. Tenciono tomar o trem das
nove da manh. vou j pedir a Hannah que prepare minhas malas.
- Trate de no preocupar sua me, Cassandra. Ela fica ansiosa cada vez
que voc viaja para Londres sem mim.
- Garanto que mame vai querer que eu me apresente linda para o duque.
Sir James foi ao escritrio para escrever a carta. Colocou-a num envelope
subscritado: "Sra. Langtry. Prnce's Theater", e deu-o a Cassandra.
- Obrigada, papai - agradeceu ela, beijando-lhe a face. Cassandra colocou
a carta no corpete do vestido e foi ao quarto da me.
Disse boa noite a lady Alice e contou-lhe sobre Londres. A me entendeu
logo a necessidade de a filha comprar mais vestidos.
Quem protestou muito foi Hannah.
- com franqueza, Cassandra, voc devia ter me prevenido com certa
antecedncia. Como posso ter tudo pronto para amanh s oito horas, a
menos que fique acordada a noite inteira?
- De qualquer forma, voc no dorme cedo - replicou Cassandra. - E houve
motivo forte para eu tomar essa deciso na ltima hora.
- Est preparando uma de suas loucuras? - perguntou-lhe Hannah. - Porque,
se for o caso, leve outra criada com voc. No quero assumir nenhuma
responsabilidade com Sua Senhoria.
Cassandra no lhe deu ateno. Estava acostumada s repreenses de
Hannah.
- vou comear a arrumar as malas j - declarou a empregada. - Levarei
mais ou menos trs horas.
- Preciso de poucos vestidos. vou ficar em Londres dois ou trs dias
apenas, s para fazer compras.
- No sei onde vai pr mais roupas. Seus armrios esto cheios -
resmungou a criada.
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Assim que ficou sozinha, Cassandra foi para a saleta anexa a seu quarto
Era uma antecmara graciosa, e l se encontrava tudo o que ela amava em
especial.
Acendeu uma vela e abriu uma gaveta. Tirou de dentro dois grandes lbuns
com capa de couro verde.
Lentamente, com expresso enigmtica no olhar, comeou a tolhe-los.
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CAPTULO II

Em cada pgina havia retratos, recortes de jornais e revistas, quase tudo
referente ao marqus de Charlbury.
Cassandra iniciara essa coletnea de artigos logo aps o jogo de
crquete, em Eton. Qualquer coisa lhe dizia que o marqus iria
representar papel importante em sua vida.
Quando, enfim, o pai lhe contou sobre os planos do casamento, ela comprou
os lbuns e colou neles todo seu material, que datava de 1878, e ia
acrescentando mais fotografias e notcias, ano aps ano, at 1885.
Foi quando seus sentimentos em relao ao marqus comearam a mudar.
Seria diferente se o noivado tivesse acontecido quando ela estava com
dezessete anos. O marqus assumira em seu corao as propores de um
heri, do homem ideal que j ocupava seus sonhos de adolescente por dois
ou trs anos.
Ouvia com prazer falarem dele, principalmente mulheres.
Contudo, no ltimo ano, Cassandra no mais nutria as mesmas intenes
quanto a seu casamento.
No que o rapaz no continuasse a persegui-la em sonhos; isso no. Mas,
trs meses aps a morte do velho duque, ele ainda no fizera meno de
visit-la em The Towers.
"No posso me casar com ele", Cassandra dizia a si mesma.
Ela era uma moa romntica, e pretendia amar o homem com quem se unisse.
Tinha conscincia de sua beleza e achava que o marqus concordaria com
isso.
"Mas e se ele no a considerasse bonita, atraente? "
Quando esteve em Londres, antes da morte de seu av, pedira  tia que a
levasse a um baile para se encontrar com o marqus.
- O marqus de Charlbury? - exclamara lady Fladbury.
- O que a faz pensar que ele vai se interessar por voc?
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Pela resposta da tia, Cassandra concluiu logo que seu paie o duque haviam
guardado segredo quanto a seus planos. Isso explicava a razo de a tia
no saber de nada.
Como Cassandra no protestasse, lady Fladbury acrescen tou:
- Esqueci que seu pai e o duque so amigos! Porm, minha querida, o jovem
Charlbury no se interesa por bailes de moas da nossa sociedade. Ele
prefere as "luzes da ribalta".
- As "luzes da ribalta"? - repetiu Cassandra.
- Ele  um dos muitos homens que se penduram na porta dos camarins das
coristas dos teatros de variedades - explicou lady Fladbury. - H vrios
deles que se unem a essas criaturas, que no sero, por certo, boas
esposas.
- Esposas?
Cassandra sabia que artistas de teatro jamais seriam aceitas na alta
sociedade.
- Kate Vaugham, por exemplo, corista de teatro de revista, casou-se com o
conde Arthur Wellesley, sobrinho do grande duque de Wellington, no ano
passado - continuou lady Fladbury. - E uma tal de Billie Bilton  agora
condessa de Clancarty. A me desse idiota est desesperada, como voc
pode imaginar.
- Jamais supus que... cavalheiros... se casassem com atrizes - sussurrou
Cassandra.
- Essas mulheres so muito astutas! Sabem como prender os homens e lev-
los ao altar!
- E a senhora acha, tia, que o marqus de Charlbury est tambm
interessado... em artistas?
- Talvez... Essas mulheres so alegres, pintam o rosto com arte e suas
jias brilham, de acordo com minha velha governanta, como "os olhos do
diabo".
Vendo Cassandra desapontada, a tia tentou consol-la:
- Oh, querida, no se preocupe. H muitos homens no mundo alm desses
fascinados pelas luzes ofuscantes dos teatros.
Porm, na primeira oportunidade, Cassandra perguntou ao pai:
- Tia Eleanor disse que muitos jovens se casam com artistas do teatro de
variedades.  mesmo, papai?
- com certeza no tantos quantos sua tia mencionou. A
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maioria dos homens, Cassandra, limita-se a lev-las para jantar e a lhes
dar presentes.  que o homem tem mais liberdade com essas mulheres do que
com moas acompanhadas, ou esposas de maridos ciumentos.
- E elas so... bonitas?
- Muito! E sem... formalidades, o que os jovens consideram mais
interessante, em contraste com as regras rgidas de nossa sociedade. Por
que me pergunta isso, minha filha? Ouviu histrias sobre Varro Charlbury?
Como Cassandra no respondesse, ele acrescentou:
- Acho que sim. Um jovem, meu amor, tem de ser livre antes de se casar. E
geralmente esses so os melhores maridos.
- Mas... e se ele amar... uma corista?
- A palavra "amar" no cabe nesta circunstncia. O que um homem sente por
uma mulher bonita dessa categoria no  "amor", mas "desejo". Ele enfeita
seus sentimentos com palavras bonitas, mas quer apenas se divertir
livremente. Porm, a menos que ele seja muito tolo, no pretende passar o
resto da vida ao lado de um rosto bonito, sem nada mais a oferecer.
- Tia Eleanor dizia...
- Sua tia citou alguns casos isolados, nada mais. E esses idiotas pagam
bem caro pelo que chamam de "apaixonar-se". Se pertencem ao corpo
diplomtico, ou militam na poltica, precisam abandonar tudo. O mesmo
acontece se esto no Exrcito. As esposas no so aceitas pela sogra ou
pelos parentes e, mesmo que os amigos homens os visitem, suas mulheres
recusam os convites.
- No  justo, papai.
- A sociedade tem suas regras, e as que se referem a um homem que se casa
fora de sua esfera social, com uma artista de teatro, ou uma mulher
divorciada, so muito severas.
Sir James fitou o rosto srio de Cassandra e acrescentou:
- No se preocupe com as histrias que ouviu sobre Varro Charlbury. Sei
que ele est passando por uma fase difcil, mas, quando se casar, ser um
marido respeitvel.
Contudo, essas palavras no convenceram Cassandra. E, aps a morte do
velho duque, quando Varro adiou sua visita a The Towers, Cassandra
decidiu investigar o assunto, descobrindo,
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como desconfiava, que ele estava constantemente na companhia de coristas
do teatro de variedades.
- Alchester  conhecido como "o duque Alegre" - um dos amigos de
Cassandra comentou certa vez. - Voc o conhece?
- No - respondeu ela. - Papai e o velho duque eram nuito amigos. Estavam
sempre juntos nas corridas. Eu gostaria de saber se o novo titular vai
conservar suas estrebarias.
- Duvido - replicou o amigo.
- Por qu?
- Porque est "enforcado", cheio de dvidas.
Se  verdade, Cassandra pensou, por que o novo duque de Alchester no se
apressou em aparecer em The Towers a fim de, alm de uma esposa,
conseguir enorme fortuna?
Ela podia encontrar apenas uma razo plausvel para isso: o novo duque
estava apaixonado por outra mulher, e no queria se casar com ela.
Mas sir James continuava otimista.
- No h duvida de que Alchester no pode se casar durante o perodo de
luto - explicara  filha. - Ele aguardar o tempo convencional.
"No aceito ser tratada dessa maneira", pensava Cassandra.
E, a cada ms que se passava, ela fortalecia sua determinao de no se
casar com um homem cujo amor havia sido dedicado a outra mulher, e que s
a desejava por dinheiro.
Continuando a folhear os lbuns, Cassandra se capacitava de como fora
infantil ao imaginar que, sendo bonita, certamente atrairia o marqus.
Podia ter mais inteligncia e cultura que as mulheres com quem ele se
associava em Londres, mas isso no queria dizer que ele dava preferncia
a essas qualidades.
Cassandra no se limitara a colecionar fotografias do marqus, mas tambm
das mulheres de teatro.
Havia  venda dezenas de fotos de atrizes, e muitas delas, Cassandra
sabia, eram amigas do marqus.
Sir James tinha numa gaveta fechada em seu escritrio algumas fotos da
sra. Langtry. Mostrou-a  filha.
- Ela  linda - observava Cassandra.
22
No mencione a sua me que possuo isto. S quero mostrar a voc como
quero que um dia seja fotografada. A arte fotogrfica  coisa nova no
pas, sabe, no?
Continuando a virar as pginas do lbum, Cassandra conclua que seu sonho
de se casar com o marqus era difcil de se tornar realidade.
Como poderia ela casar-se com um homem que se interessava apenas por seu
dinheiro? Era esse um costume na sociedade a que pertencia, mas havia
grande nmero de mulheres que se casavam por amor, e Cassandra queria ser
uma delas.
Pensou no assunto todos os meses em que o pai esperava ansiosamente pela
carta do novo duque. Tinha quase certeza de que a tal carta no chegaria.
Mas errara. A carta chegou. Contudo, isso no significava que ele a
amava. Varro Charlbury, agora o novo duque de Alchester, atingira o
estgio em que precisava de dinheiro desesperadamente, e no podia adiar
por muito tempo seu pedido de casamento.
Numa das pginas do lbum havia um artigo com longa descrio do
Alchester Park, publicado no London News.
Era fcil imaginar o esplendor que tivera uma das mais famosas manses da
Inglaterra, construda no reinado de Elizabeth I e que recebera como
hspedes vrios monarcas reinantes.
Cassandra virou mais algumas pginas. O marqus no estava mais to magro
como no dia em que ela o conhecera, no jogo de crquete. Mas seus olhos
eram os mesmos.
Contudo, apesar de possuir tudo aquilo, de conservar todas aquelas
lembranas, Cassandra no queria mais se casar com ele. Suspirando, disse
a si mesma: "Prefiro casar-me com um  homem que me seja indiferente. No
deixa de ser desagradvel, at um pouco assustador, casar-se com um homem
por quem no se tenha afeio. Mas casar-se por amor e sentir que o
companheiro d em troca apenas os deveres de marido, deve ser um
inferno".
Ele a beijaria... ele cumpriria suas obrigaes de marido... mas apenas
para lhe dar filhos...
Cassandra, como a maioria de suas amigas, era muito ingnua, e no sabia
quase nada sobre sexo.
- Mame - ela perguntara certa vez a lady Alice, quando
23
ainda muito jovem -, por que um homem e uma mulher que dormem juntos tm
bebs? Lady Alice titubeou antes de responder:
- Quando voc se casar, Cassandra, seu marido lhe explicar tudo.
Ela continuava na ignorncia sobre o assunto, mas tinha certeza de que
no poderia dormir na mesma cama com um homem que no a amasse.
- Eu no aguentaria! - falou em voz alta.
Fechou os lbuns e os ps na gaveta. Apanhou depois seu dirio e comeou
a escrever.
O pai a incentivara a ter um dirio.
- Voc encontrar pessoas novas e ter a oportunidade de conhecer algumas
at famosas, Cassandra. Tome nota de tudo. Eu sempre lamentei no ter
feito o mesmo quando jovem.
Cassandra decidiu seguir a sugesto do pai. Escrevia algumas linhas em
seu dirio todas as noites, antes de ir para a cama. Ocasionalmente,
quando registrava algo que previa antes de acontecer, lia para o pai. E
ele admirava a perspiccia da filha, sua capacidade de premonio.
Enfim, cansada, foi pra o quarto.
- Preciso v-lo antes de tomar qualquer deciso - disse ela, tambm em
voz alta. - Quero ter certeza de estar fazendo tudo de maneira acertada
para no aborrecer papai inutilmente.
Olhou-se depois no espelho. Seus cabelos ruivos, soltos e bem escovados
por Hannah, brilhavam  luz da penteadeira. Os olhos azuis contrastavam
com os clios muito escuros.
- Isso  injusto! - uma das amigas de Cassandra queixara-se uma vez. -
Passo horas escurecendo meus clios, escondido de minha me, e voc tem
os seus negros como carvo.
- So naturais, eu lhe garanto - replicara Cassandra, rin do muito.
- Estou vendo. Por essa razo acho injusto! Se fossem artificialmente
escurecidos, seria fcil aceitar. Mas no, voc os tem assim sem esforo
algum. Voc  linda, Cassandra, tem um ar teatral!
Ar teatral!
Cassandra repetiu essas duas palavras muitas vezes a si msma
24
e imaginava-se frequentemente pobre, tendo necessidade de ganhar a
vida.
Iria ento a Londres e pediria a George Edwards que a contratasse como
corista. E ele responderia:
- Voc  linda demais para isso, minha cara. vou lhe dar um papel
importante, e o pblico a aplaudir com certeza.
Naturalmente, na imaginao de Cassandra, era o que aconteceria. E muitos
cavalheiros a convidariam para jantar. E, como no podia deixar de ser, o
mais insistente deles todos seria o filho do duque de Alchester.
De sbito, uma ideia veio-lhe  mente. Por que no transformar seus
sonhos de menina em realidade?
Seria loucura! Mas... loucura ou no, ela entraria em contato com o duque
em seu prprio territrio. Ela o veria ao natural.
"vou fazer isso mesmo. Todavia, e se me apaixonar ainda mais? No
importa. De qualquer maneira, no me casarei se ele amar outra mulher. "
No obstante, teria ela foras para recus-lo? Sim, teria. Seu orgulho
era mais forte que o amor. Diria "no" a seu pedido.
Ela comeou ento a fazer seus planos: iria a Londres, isso j estava
decidido; teria um encontro com o duque, no como Cassandra Sherburn, mas
como uma atriz, o tipo de mulher que ele apreciava; e Lily Langtry seria
seu passaporte para o deslumbrante mundo do teatro.
Na opinio de Cassandra, a amizade de seu pai com Lily limitava-se a um
flerte. Ela no entendia bem da necessidade fsica de um homem, assunto
que nunca entrara em discusso na sua vida superprotegida.
Acreditava, contudo, que o pai, atraente, msculo, devia ter dificuldade
em se ver amarrado a uma mulher invlida.
Mas era em consequncia disso que ele s vezes escapava de sua vida de
chefe de famlia perfeito e ia a Londres a fim de convidar uma mulher
bonita para jantar ou danar. Lady Alice nunca mais pudera danar.
De qualquer forma, os casos amorosos de sir James no interferiam jamais
na tranquilidade de seu lar.
Muitas mulheres do condado o perseguiam abertamente. Ele dirigia-lhe
palavras amveis, mas deixava bem claro que aquilo
25
 era o comeo e o fim do relacionamento.
Em Yorkshire, ele era o marido devotado, o homem ntegro e responsvel,
respeitado por todos que o conheciam.
O que ele fazia em Londres no era da conta de ningum. Nessas viagens,
que envolviam o comparecimento a corridas de cavalos, a compra de quadros
e mveis, havia noites em que sir James no jantava em sua casa em Park
Lane, tampouco em banquetes oferecidos pelo prncipe de Gales ou outras
famlias de destaque.
Se, na volta ao lar, chegavam cartas femininas, telegramas, nem lady
Alice nem Cassandra os viam.
Quando sir James viajava, lady Alice ficava inquieta, triste, mas quase
nunca protestava.
E, ao receber hspedes em casa, tratava-os bem, e Cassandra ouvia muitos
deles comentarem:
- A gente se esquece de que sua me est confinada a uma cadeira de
rodas.  muito corajosa e no se queixa jamais. A ns parece que ela leva
uma vida normal.
- Meu pai e eu temos a mesma impresso - Cassandra respondia.
Porm, lady Alice no conseguia esconder sua enorme alegria a cada
retorno de sir James de Londres. Estendia-lhe os braos num gesto de
acolhimento, cheia de amor.
- Teve saudade de mim, querida? - Cassandra ouvia o pai dizer, abraando
a esposa.
- Sabe que cada minuto que voc est longe representa uma eternidade para
mim.
"Esse  o verdadeiro amor!", pensava Cassandra. "Sacrificarse para que o
ente amado se sinta feliz!" Mas seria muito diferente se ela se casasse
com o duque.
- No poderei aguentar! No poderei aguentar! - ela quase gritou.
Deitou-se, escondeu o rosto no travesseiro e ficou pensando, no
propriamente no duque de Alchester, mas nos planos para engan-lo.
Na manh seguinte, vestiu-se e foi despedir-se da me.
- Compre os vestidos mais lindos que encontrar, querida
- recomendou-lhe lady Alice. - Bond Street est cheia deles. Mas volte
logo.
26
Prometo, mame. No  nada agradvel escutar por dias
seguidos a tagarelice de tia Eleanor.
- No conte a ela sobre a visita do duque aqui em The Towers -
recomendou-lhe a me.
- Nunca confio a tia Eleanor qualquer coisa que no pretenda que toda
Londres venha a saber.
Ao despedir-se do pai, Cassandra abraou-o e disse:
- Gostaria que voc fosse comigo, papai. Mas, sozinha, posso concentrar-
me melhor nas compras e gastar bem seu dinheiro.
- Basta que escreva um cheque contra o Coutts Bank, e ter todo o
dinheiro de que necessita. Leva algum com voc agora?
- Levo, papai, mais do que o suficiente.
Cassandra beijou-o e entrou na carruagem onde Hannah j a esperava, de
mau humor, devido a ter sido apressada para os preparativos.
- Hannah - declarou Cassandra, assim que os cavalos se puseram em
movimento. - Estamos no incio de uma grande aventura.
- Que quer dizer com isso, Cassandra?
- Que voc vai me ajudar num empreendimento arriscado.
- No fao nada disso. Se planeja uma de suas loucuras, volto para casa
j.
Cassandra riu muito e acrescentou:
- Oh, Hannah, adoro amolar voc! No vou fazer nada de mais, porm
preciso de seu auxlio.
- No farei nada que Sua Senhoria no aprove - protestou Hannah.
Contudo, Cassandra tinha certeza de que poderia confiar na empregada
plenamente.
No trem para Londres, Cassandra re-examinava seus planos e pareceu-lhe que
as rodas dos vages em atrito contra os trilhos repetiam:
" loucura!  loucura! "
A viagem foi longa e cansativa. Cassandra planejava, esquematizava,
esmiuava cada detalhe do que pretendia fazer.
O pai sempre dizia que fora uma pena ela no ter nascido homem.
Conversava frequentemente com a filha sobre negcios e empreendimentos e
muitas vezes pedia-lhe opinio. Assim,
27
Cassandra aprendeu com ele que pequenos detalhes eram importantes
numa operao de vulto.
" sempre o elo mais fraco da corrente que arrebenta." Era uma das frases
favoritas de sir James.
Hannah estranhou o silncio da patroa, mas no fez comentrios.
Cassandra sorria quando finalmente chegaram em Park Lane.
Sir James fizera de sua residncia em Londres um local confortvel.
Instalara at luz eltrica, a ltima novidade na capital. E tambm
telefone. O primeiro fora inaugurado em 1879.
Lady Fladbury, a tia de Cassandra que l morava e cuidava da manso,
havia sido uma jovem bonita, mas tornara-se uma mulher pesadona, pouco
gil, movimentando-se vagarosamente aos sessenta anos de idade. Era dez
anos mais velha que seu irmo James, e muito devotada a ele. Adorava
Cassandra.
- Que bom voc ter vindo me visitar, querida! - exclamou ela ao ver a
sobrinha. - No pode imaginar minha alegria ao receber o telegrama de seu
pai esta manh.
-  um prazer estar com a senhora, tia Eleanor. Vim a Londres para
comprar uns vestidos e no quero lhe causar transtornos.
- Voc nunca me causa transtornos. vou apenas cancelar um jogo de bridge
para amanh  noite.
- No, por favor - suplicou Cassandra. - No cancele nada, tia Eleanor.
Tenho minha agenda cheia. Estava at com receio de que a senhora ficasse
ofendida por eu no passar muitas horas aqui.
- No, no ficarei ofendida. Ao contrrio, s quero que se divirta muito.
- Conte-me ento as novidades, tia Eleanor - pediu-lhe Cassandra enquanto
saboreava o chocolate quente que o mordomo lhe servira. - Nos confins de
Yorkshire, nunca tomamos conhecimento de nenhum escndalo.
- No diga! - Lady Fladbury riu. - H muitos no momento.
- Quem o prncipe de Gales est namorando agora? - perguntou Cassandra.
- Vrias beldades, e  difcil enumer-las. Mas de uma coisa estou certa:
desde a ascenso da atriz Lily Langtry, as amiguinhas do prncipe, mesmo
as atrizes, so aceitas em algumas
28
reunies da alta sociedade.
Uma coroa realiza milagres, no ? - disse Cassandra.
Alis, nunca vi razo para uma artista ser tratada como pria.
Lady Fladbury ia protestar, mas mudou de ideia e apenas perguntou 
sobrinha:
- E voc, como vai, Cassandra? J tem planos para seu casamento?
- Ainda no. Preciso antes encontrar um noivo.
- Surpreende-me ver que James no possua ningum  vista. Sempre falava
em lhe arranjar um prncipe, e agora a est voc, com mais de vinte
anos, e solteira.
- No sou solteirona ainda, tia!
- Pensava em seu caso recentemente. Fiz at uma lista de bons partidos
que adorariam unir-se a uma jovem bonita, inteligente e, acima de tudo,
muito rica. Achei que seu pai iria trazla a Londres para a prxima
temporada. Mas no me pediu que providenciasse sua apresentao no
Buckingham Palace, por isso conclu que ele cuidara disso sozinho.
- Penso que sim - replicou Cassandra com indiferena. De qualquer forma,
as recepes tero lugar no fim de maio, e temos muito tempo para isso.
Contudo, sinto-me velha demais para ser uma debutante.
- Bobagem!
Aps certa hesitao, Cassandra arriscou perguntar:
- Como a senhora me disse tempos atrs, muitos rapazes da alta sociedade
casaram-se com atrizes. Esse costume ainda persiste?
- Claro! - replicou a tia. - Recentemente fala-se muito sobre o caso do
duque de Beaufort, membro da Liga da Jarreteira, de romance com uma atriz
de nome Connie Gilchrist.
- H ento muitos jovens "pendurados"  porta dos camarins, tia?
- Tantos que voc nem imagina! Cassandra deu um profundo suspiro e
indagou:
- E o que me conta sobre o filho do grande amigo de paPai, o duque de
Alchester? Ele est tambm preso a uma corista qualquer?
- Durante o inverno todo fez a corte a uma atriz; no posso me lembrar do
nome dela... Betty qualquer coisa. Desconfio que no houve nada srio.
Mas no h dvida de que ele
29
tem queda por coristas. Lady Lowry dizia, na semana passada mesmo, que o
jovem duque recusa todos os convites para festas respeitveis.
- Acha que ele se casaria com uma mulher do palco, tia?
- Talvez! Lady Lowry acredita que os homens que se apaixonam por essas
caras pintadas e se casam com elas no regulam bem da cabea!
- Julgo que essa seja... a explicao! - sussurrou Cassandra.
30

CAPTULO III

Cassandra acordou cedo na manh seguinte e, vendo que ainda tinha uma
hora, antes que Hannah viesse cham-la, levantouse e abriu as cortinas.
Tirou da gaveta a carta do pai para a sra. Langtry. Deliberamente, abriu-
a.
Sir James escrevera, com sua letra firme e clara:
"Minha querida Lily,
Estou encantado, como todos que a amam, pelo enorme sucesso que voc
conseguiu em ambos os lados do Atlntico. Via em Peril e achei que foi
no apenas brilhante em sua atuao, como estava mais linda do que nunca.
Esta carta tem por finalidade lhe apresentar minha filha, da qual sou
muito orgulhoso. Ela est ansiosa por conhec-la. Sei que voc vai
receb-la bem, e ficarei muito grato por sua gentileza.
Ponho-me a seus ps, como sempre.
com amor, James".
Cassandra leu tudo cuidadosamente. Considerou a carta um pouco efusiva
demais, porm sups que uma pessoa como a sra. Langtry esperaria isso de
um homem.
Pegando uma folha de papel em branco, timbrado, que trouxera de The
Towers, comeou a copiar a carta, imitando com perfeio a caligrafia do
pai.
Ela j fizera isso antes, e comentara com sir James:
- Voc tem uma letra to clara que  a coisa mais fcil do mundo imit-
la.
- A sorte minha  que nem todo mundo tem sua habilidade, Cassandra - sir
James respondera rindo -, mas, de qualQuer maneira, vou ter cuidado para
que no me leve  falncia.
Ela copiou a primeira parte da carta exatamente como estava, porm mudou
o resto:
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"Esta carta tem por finalidade apresentar-lhe a srta. Sandra Standish,
uma jovem atriz, filha de um velho amigo meu, e pedirlhe que, com sua
habitual generosidade, a ingresse no mundo do palco. Ela deseja tambm
ser apresentada ao novo duque de Alchester e conta com sua cooperao.
Eu poderia fazer isso com facilidade, mas, infelizmente, no posso me
ausentar da casa no momento. Portanto, por favor, querida Lily, ajude a
srta. Standish e ficarei seu eterno devedor".
Cassandra terminou a carta como o pai o fizera, e colocou-a no envelope.
A, teve uma ideia: tirou da gaveta um broche com enorme diamante em
forma de estrela. Foi um dos poucos presentes do pai que ela considerara
de mau gosto, jia espalhafatosa demais. Porm, possivelmente, adequada a
uma atriz. Abriu de novo o envelope e acrescentou um post-scriptum:
"Para mim, voc  a estrela mais brilhante do universo".
Fechou o envelope e colocou-o junto com o estojo da jia na gaveta.
Quando Hannah entrou no quarto, encontrou a patroa j vestida.
- Por que no me chamou, Cassandra?
- No quis interromper seu caf da manh - replicou Cassandra. - Mas
podemos sair agora.
- A esta hora da manh?
- Tenho muito a fazer. No desejo ficar em Londres mais do que o
necessrio.
Cassandra sabia ser essa a melhor desculpa para apressar Hannah, porque
a empregada detestava Londres e tinha sempre pressa de voltar a The Towers.
Antes de sair, Cassandra teve de escutar um completo relatrio de lady
Fladbury sobre suas amigas. Enfim, conseguiu fazer a pergunta que lhe
queimava a lngua:
- Tia Eleanor, que tal o novo show de Lily Langtry? Eu gostaria de ir ao
teatro, j que estou aqui em Londres.
- O show  muito bom! - replicou lady Fladbury. - um drama intitulado
Inimigos. Uma outra adaptao de Cogh lan, do francs.
-  emocionante?
- . O segundo ato termina com o assassinato por estran gulamento de uma
moa da aldeia, praticado por um rapaz anormal.
32
Tenho de admitir que Lily trabalha muito bem. Todos dizem que  o
melhor papel de sua vida como atriz. Queria v-la muito - insistiu
Cassandra.
- O prncipe de Gales compareceu  estreia!
Ouvi dizer que os toaletes de Lily Langtry so lindssimos.
- Claro! Ela no paga pelas roupas!
- Talvez o teatro pague, a ttulo de propaganda. Por sinal, onde so
compradas, tia? A senhora sabe?
- A maior parte vem de Paris, mas Redfern, em Conduit Street, fornece
muitas delas.
- Fui vrias vezes a Redfern - sussurrou Cassandra, mas a tia nem a
estava escutando.
- J lhe contaram a histria - prosseguia lady Fladbury
- sobre Alfred de Rothschild que deu a ela um modelo de Doucet, de Paris?
Pois bem, Lily encomendou uma angua para acompanhar o vestido. Quando a
conta chegou, o milionrio a enviou  atriz, dizendo que lhe oferecera um
vestido apenas, nada mais.
Cassandra riu e observou:
- Muitas atrizes devem ter inveja dela, tia. Mas onde as outras compram
seus toaletes?
- Em lojas mais baratas. Algum me disse que Chasemore fornece muitas
coisas s coristas do teatro de variedades.
Cassandra descobriu o que desejava. Disse em seguida  tia:
- Preciso ir agora.
Ela deu o endereo ao cocheiro, que tomou a direo de Piccadilly. Fazia
frio.
- Aonde vamos, Cassandra? - indagou Hanna.
- Fazer compras. E no se espante com o que eu comprar. Isso  apenas o
comeo da aventura sobre a qual a preveni.
Durante toda a manh, Cassandra comprou roupas e ouviu a empregada dizer
dezenas de vezes que lady Alice no aprovaria nada daquilo.
- Voc deve estar louca, Cassandra! - berrava ela horrorizada cada vez
que a vendedora saa da sala de provas.
De fato, os vestidos que Cassandra comprara eram completamente diversos
dos que estava acostumada a usar. Tinham um chique parisiense. E o ltimo
acentuava seus cabelos ruivos e olhos azuis com clios escuros. Era bem
teatral.
33
- Por Deus, Cassandra, por que gastar tanto dinheiro com todo esse lixo?
- Tenho minhas razes, Hannah. Que tal achou dos vestidos? Diga a
verdade!
- Voc se parecia com algum saindo do Music Hall, como uma corista
qualquer.
- Obrigada, Hannah, era exatamente o que eu queria escutar.
Cassandra no deu ouvidos aos protestos da empregada e con tinuou
comprando mais coisas.
- Confeccionamos aqui uns toaletes atraentes para mis Sylvia Grey -
confiou-lhe a vendedora.
- Ela trabalha no teatro de variedades?
- Trabalha. E um dos vestidos, mais ou menos igual ao ltimo que a
senhora experimentou, foi descrito vrias vezes nos jornais. Mas  miss
Nelly Farran quem recebe mais aplausos. Ela realmente gasta em roupas!
A vendedora recomendou uma loja que fazia chapus para quase todas as
artistas, e Cassandra comprou sapatos e bolsas que combinavam com os
toaletes.
Enfim, Hannah queixou-se:
- H muito tempo j passou da hora do almoo, e voc vai desmaiar se no
comer, Cassandra. Vamos embora. Gastou muito dinheiro! S quero v-la
usando uma dessas roupas em The Towers!
- Logo ter uma supresa, Hannah!
Antes de voltarem a casa, Cassandra fez a carruagem parar numa loja
estranha.
- Perucas para artistas! - exclamou Hannah. - No pretende agora comprar
uma, no? Se o fizer, vou j embora para Yorkshire.
- Espere por mim na carruagem, Hannah. Voc no precisa descer.
Cassandra entrou na loja sozinha e l comprou batom, ruge, p e outros
artigos para pintura usados pelas atrizes. Esses itens eram difceis de
ser obtidos em lojas no especializadas para teatro.
Cassandra voltou  carruagem e Hannah insistiu:
- Preciso saber o que est acontecendo. Se quiser minha ajuda, tem de me
dizer a verdade.
34
Cassandra no desejava revelar seus planos secretos nem mesmo a Hannah.
Por isso evitou o assunto at chegarem a Park
Lane.
Lady Fladbury no estava interessada no que a sobrinha fizera a manh
toda. Ao contrrio, falou durante o almoo sobre assuntos os mais
variados.
- No fica entediada, tia Eleanor, por morar aqui sozinha?
- perguntou-lhe Cassandra.
- Nunca fui to feliz em minha vida! - replicou a tia com sinceridade. -
 que jamais tive no passado um momento sequer para mim. Meu marido era
muito dominador, e meus filhos, antes de se casarem, requisitavam minha
ateno constantemente.  o que sucede com a maioria das mulheres.
Lembro-me de uma amiga dizer: "A melhor coisa da vida  nascer viva ou
rf". E acho que tinha razo. Claro que ela se referia a vivas e rfs
ricas!
- Ento, agora, a senhora est nesta posio invejvel? observou
Cassandra.
- No sou rica, mas, graas a seu pai, vivo confortavelmente. Tenho
muitos amigos em Londres e, sentada numa mesa de bridge, duvido que haja
mulher mais feliz no mundo.
- Que bom, tia Eleanor!
- S lhe peo, Cassandra, que no me meta em encrencas com seu pai.
- O que os olhos no vem o corao no sente, tia Eleanor. A senhora tem
sido muito boa para mim, e sou-lhe grata. No se preocupe.
- Est tramando alguma coisa, isso posso perceber. - Lady Fladbury
sorriu. - Tudo bem. Cada pessoa possui seus segredos. Mas agora, querida,
tenho amigas esperando por mim na mesa verde, e estarei ocupada at a
noite.
Para surpresa de Hannah, Cassandra no foi percorrer lojas  tarde, mas
dirigiu-se a uma imobiliria.
- Aonde vamos? - indagou a empregada.
- Fique no carro, Hannah.
Cassandra desapareceu antes que a criada pudesse protestar. Um
funcionrio bem vestido atendeu-a.
- Procuro um apartamento para uma amiga - explicoulhe Cassandra. - Ela
trabalha no teatro.
- No palco? - indagou o agente, espantado.
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Cassandra notou que o homem achava que uma mulher igual a ela no poderia
ter ligaes com criatura de profisso to condenvel.
-  uma artista famosa - acrescentou Cassandra. - Tanto quanto Lily
Langtry. Ela quer morar no West End a fim de ficar perto do teatro, mas
num edifcio de boa reputao.
- Sim, claro! Mas a senhorita precisa entender, mademoiselle, que nenhum
proprietrio aceita atores ou atrizes.
- Talvez porque no paguem seus aluguis em dia... - Cassandra sorriu. -
Ento, para deix-lo mais  vontade, prometo pagar-lhe dois meses
adiantado. Isso acabar com qualquer desconfiana do proprietrio.
- Acho que sim - concordou o funcionrio. - Torna as coisas bem mais
fceis.
Ele abriu o livro de registro e examinou-o.
- No temos muito a oferecer - declarou.
- Soube que certa ocasio Lily Langtry alugou um apartamento no Albany.
No h nenhum por l?
- Acho que no, mas h um em Bury Street. Foi ocupado por miss Kate
Vaughan, antes de ela se casar.
- A artista que se casou com o sobrinho do duque de Wellington?
- Essa mesma, mademoiselle. Mas sempre foi pessoa respeitvel.
-  bom saber disso. No gostaria que minha amiga se sentisse mal aqui em
Londres.
- Garanto que ela vai gostar do apartamento.
- O senhor pode me dar alguns detalhes?
- Tem dois dormitrios, uma sala e uma pequena cozinha.
- Parece-me bom - disse Cassandra.
-  mobiliado tambm.
- Gostaria de v-lo - pediu Cassandra.
Ela e Hannah foram at Bury Street, acompanhadas pelo funcionrio da
agncia.
Subiram ao segundo andar do prdio.
Cassandra teve vontade de rir quando viu o apartamento. Os mveis eram de
mau gosto. Os sofs e poltronas, de brocado azul-vivo, estavam cobertos
de almofadas vermelhas, bordadas com contas de cores variadas.
As paredes apresentavam-se forradas de gravuras baratas,
36
quase todas com motivos de cidades italianas. Havia tambm fotografias de
atrizes e de alguns atores.
- Onde mora o dono?
 uma senhora. No momento encontra-se na Austrlia
com... um amigo. E pediu-me que arranjasse um inquilino para seu
apartamento.
O quarto era ainda mais grotesco que a sala. Tinha cortinas cor-de-rosa
nas janelas e, ao redor da cama de lato, dossel de flores artificiais.
Havia laos, franjas e fitas por toda parte, e as paredes estavam
completamente revestidas de espelhos.
- A dona devia adorar sua prpria imagem - observou Cassandra, rindo. -
Fico com o apartamento.
Ela pagou dois meses adiantado, registrou a amiga como miss Standish, e
tomou posse das chaves.
- Sua amiga vai mudar imediatamente? - indagou-lhe o funcionrio.
- Vai chegar do norte esta noite. Mas, se houver algum atraso, eu estarei
aqui amanh. E muito obrigada por encontrar um local para ela. Minha
amiga detesta hotis.
O funcionrio mostrava-se encantado por ter se livrado do apartamento.
Cassandra despediu-se dele e voltou para Park Lane, ouvindo uma enxurrada
de protestos dos lbios de Hannah.
- Enfim, o que significa tudo isso, Cassandra? Jamais vi apartamento to
horrvel!
-  para uma amiga que trabalha no teatro, Hannah.
- E quem  ela? Voc nunca teve amigos trabalhando no palco, que eu
saiba.
- O nome dela  Sandra Standish - replicou Cassandra.
- Sandra?  como o patro chama voc s vezes! - Hannah comeou a
suspeitar de algo.
- Eu sei. Por isso escolhi esse nome.
- Que est tentando dizer, Cassandra?
- Que sou eu a tal atriz. No faa essa cara de espanto. vou representar
o papel de uma artista talentosa.
- Uma artista?
- S espero ser suficientemente boa para o que pretendo.
- A nica coisa que vai conseguir  um monte de problemas - ameaou-a
Hannah. - Voc no vai ficar neste antro
37
medonho, vai?
- No, mas preciso ter um endereo. E nele voc esperar por mim todas as
noites, Hannah. Isto , se algum me convidar para sair.
- No sei em que vai dar tudo isso. S sei, Cassandra, que est se
arriscando muito, e nada de bom resultar disso. Oua minhas palavras!
- Estou ouvindo - respondeu Cassandra.
Mas ela rezava para que Hannah estivesse enganada e que seu plano no
falhasse.
O porteiro do Prince's Theater olhou surpreendido para a senhora bem
vestida que surgiu no guich onde ele estava, nos fundos do teatro, s
sete e meia da noite.
- O que a senhora deseja? - ele perguntou.
Era um velho que trabalhava no teatro h mais de vinte anos, conhecido
pelo nome de "Co de Guarda".
- Quero falar com miss Langtry.
- No  possvel - replicou ele. - Ela no recebe ningum antes do
espetculo e, mesmo depois, muito poucos o conseguem.
- Sei que ela faz excees, por isso quero v-la agora.
- J lhe disse, madame, ela no v ningum a esta hora. Cassandra
apresentou-lhe a carta juntamente com uma moeda
de ouro.
- Pode dizer a miss Langtry que tenho uma coisa muito valiosa para lhe
dar. No posso entreg-la a ningum, nem mesmo ao senhor.
"Co de Guarda" fitou a moeda com olhos vidos. Estava acostumado a
receber gorjetas generosas de homens, mas nunca de pessoas do sexo
feminino.
- vou ver o que posso fazer - resmungou ele, colocando o dinheiro no
bolso com uma rapidez que demonstrava longa prtica.
Pegou a carta e desapareceu no interior do teatro.
Pela primeira vez em sua vida Cassandra esperava, na porta dos fundos de
um teatro. As paredes eram sujas e fazia frio. Ela arrependeu-se de no
ter vestido um de seus casacos de pele. Aguardava com impacincia.
E se Lily Langtry se negasse a receb-la?
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Cassandra ouviu passos. O porteiro voltava.
- Venha por aqui - disse ele.
Cassandra seguiu-o com o corao aos pulos.
O lugar ficava cada vez mais sujo  medida que ela avanava, mas o
camarim da sra. Langtry era uma festa de luz e luxo. Cassandra lembrou-
se logo do que lera num jornal:
"A sra. Langtry insiste em ter em cada teatro onde atua um camarim
mobiliado sempre no mesmo estilo, o de sua preferncia. Portanto, toda a
parafernlia  transportada para onde ela ir atuar".
O camarim no era grande, sendo a penteadeira branca a pea maior, toda
ela ornamentada com cupidos e borboletas e festes de cetim rosa forrados
de musselina.
O espelho fora iluminado com luz eltrica e, numa bandeja, estavam os
artigos de toalete: a escova, o pente, o frasco de perfume e a caixa de
p, todos com enfeites em ouro, com as iniciais dela gravadas e
circundadas de turquesa.
Havia cestas de flores por toda parte, e um sof confortvel.
Uma cortina se abriu e Lily Langtry apareceu. Aos vinte e nove anos de
idade era ainda lindssima. Tinha a pele transparente, branca e delicada.
Movia-se com elegncia, como se caminhasse sobre nuvens.
- Que amabilidade a sua em me trazer uma carta de sir James Sherburn -
disse ela a Cassandra, com voz suave e musical.
Sorriu e convidou-a a sentar-se a seu lado.
- Acomode-se, srta Standish. Conte-me o que deseja, mas antes creio que
tem alguma coisa para me dar.
Cassandra estendeu-lhe o estojo com o broche, dizendo:
- Sir James pediu-me que lhe entregasse isso, sra. Langtry. Lily abriu o
estojo e exclamou, com prazer:
- Que maravilha!
Ela examinou o broche e fechou de novo o estojo.
- E agora - acrescentou -, diga-me a que veio. Est representando em
Londres, no momento?
- No. Vim para c a fim de tomar aulas de canto - resPondeu Cassandra. -
Prometeram-me uma parte num show musical, se eu melhorar minha voz. Por
isso tenciono passar um ms em Londres praticando com um professor.
- Muito sensata - aprovou-a a sra. Langtry. - E, enquanto est aqui, quer
se encontrar com o jovem duque de Alchester.
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 isso?
- Ficaria muito grata se a senhora me apresentasse a ele. Tenho de lhe
dar um recado de uma pessoa que j... morreu.
- Seu desejo pode ser facilmente satisfeito. Por coincidncia, vou a uma
festa esta noite, onde, acredito, ele estar presente.  na casa de lorde
Carwen e garanto que Sua Senhoria no se importar se eu a levar. Tem
outro compromisso para hoje?
- No, nada, embora pretenda assistir a seu espetculo.
- Isso tambm no  difcil. Tenho um amigo que sempre ocupa o camarote
perto do palco. Voc pode ficar com ele e, depois, ns a levaremos 
festa de lorde Carwen.
- Muito obrigada - agradeceu Cassandra, comovida.
Ela notou que Lily examinava com ateno seu vestido caro e elegante, o
broche de pedras preciosas e a pulseira que usava sobre a luva de pelica.
Tinha certeza de que a sra. Langtry no a trataria com tanta deferncia
se ela estivesse mal vestida.
- A senhora no vai ter de se preparar? - perguntou-lhe Cassandra
amavelmente. - Quer que eu a espere l fora?
- No, no. O sr. Gebhard no tardar a chegar. Ele a levar ao camarote.
Neste meio tempo, fique aqui bem quietinha. Tenho quinze minutos para
descansar antes de a camareira vir para me vestir.
Os instantes que se seguiram foram os mais interessantes da vida de
Cassandra.
Quando a sra. Langtry levantou-se, os preparativos comearam.
Cassandra observou que o espelho possua um dispositivo especial que
fazia a iluminao eltrica mudar de cor, ficando azul, vermelha, mbar,
conforme se desejasse.
- Isso me facilita saber - explicou-lhe Lily - que aspecto meu toalete
ter no palco.
A imprensa insistia que a sra. Langtry no usava maquilagem de espcie
alguma. Mas Cassandra constatou logo que no era verdade.
Ela ps um pouco de ruge nas faces, batom nos lbios e p facial.
Escureceu em seguida os clios e as sobrancelhas. Tudo muito
discretamente.
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Cassandra ficou contente porque, na carruagem que a conduzira ao teatro,
apesar dos protestos de Hannah, ela tambm pintara os lbios e o rosto.
- O que est fazendo, Cassandra? - exclamara Hannah horrorizada. - O que
seus amigos vo pensar, se a virem piny tada desse jeito, como uma atriz?
- Estou justamente fingindo que sou uma atriz, Hanna.
- No vejo por que se orgulhar disso!
- Tenho a ligeira impresso de que seus sentimentos coincidem com os da
maioria das pessoas - caoou Cassandra.
Depois, no deu mais ouvidos  lengalenga da empregada.
E, no camarim de Lily Langtry, observava como a artista aplicava com arte
sua maquilagem.
Enfim, quinze minutos antes do incio do espetculo, o sr. Frederick
Gebhard apareceu.
Cassandra recordou-se de ter lido que esse jovem americano acompanhara
Lily de Nova York  Inglaterra.
Freddy Gebhard, quatro anos mais moo que ela, era milionrio, filho de
um prspero negociante americano, e possua uma renda anual de noventa
mil dlares.
Alto e elegante, vestia-se muito bem. Geralmente comprava suas roupas em
Londres.
Freddy dera plena liberdade a Lily de usar seu talo de cheques, mas no
permitia que outro admirador se aproximasse dela.
Ele era mencionado nos jornais americanos tanto quanto Lily. Viajava com
ela nas diversas excurses e sempre num vago reservado s para os dois,
vago de luxo, grande, pintado de azul, com banheiro decorado com filetes
de prata pura. Freddy pretendera se casar com Lily.
Ela voltara para a Inglaterra trs anos antes, em 1883, a fim de tentar
persuadir o marido, o sr. Langtry, a lhe conceder o divrcio. Mas ele
recusara categoricamente.
Lily voltou aos Estados Unidos e constatou que Freddy ainda a adorava.
Ele instalou-a numa casa luxuosa em West 23rd Street, onde ofereciam
festas grandiosas que ocupavam as manchetes
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dos jornais.
Freddy estendeu a mo a Cassandra ao serem apresentados, mas era bvio
que tinha olhos s para Lily.
- Lily, meu amor, voc est mais linda que nunca - sussurrou ele,
beijando-lhe a mo.
"Que pena que no puderam se casar", foi o primeiro pensamento de
Cassandra.
- Todos os lugares foram vendidos! - anunciou Freddy. - Sei disso -
replicou Lily. - Contaram-me que houve uma lohga fila desde o meio-dia.
Ela j usava o vestido no qual apareceria no primeiro ato. - Voc est
linda - repetiu ele. - No me admira que todos queiram v-la.
- Obrigada, Freddy. - Em seguida, acrescentou: - Conduza a srta. Standish
para seu camarote. Prometi lev-la conosco  festa de lorde Carwen.
- Muito bem - concordou ele.
Cassandra achou que o rapaz ficou um pouco desapontado por ver que no
ficaria o tempo todo a ss com sua adorada Lily, mesmo considerando-se
que era curta a distncia entre o teatro e o local da festa.
- Espero no estar sendo um transtorno - declarou Cassandra humildemente.
- De forma alguma - protestou Freddy, talvez no com sinceridade.
Ele beijou ambas as mos de Lily e sussurrou algo a seus ouvidos antes de
levar Cassandra ao camarote reservado para ele todas as noites.
Cassandra preocupou-se com algum da audincia reconhecla. No era
provvel. Contudo, se um de seus amigos de Yorkshire aparecesse em
Londres, sem dvida iria ao show de Lily Langtry. E Cassandra antevia o
escndalo de ser vista sozinha com um homem, num camarote de teatro,
principalmente com o conhecido Freddy Gebhard.
Ela resolveu o problema sentando-se bem atrs, com boa vista para o
palco, porm invisvel  plateia.
Freddy cumprimentava amigos o tempo todo, antes do incio do espetculo.
Ele comentou com Cassandra:
- Os ingleses comeam a me conhecer aqui como os ameril
canos me conhecem em Nova York. Lily e eu fazemos um par feliz e famoso!
O pano de palco foi erguido.
O show havia sido bem adaptado. Tratava-se de uma velha rixa entre duas
famlias aristocrticas, cuja reconciliao seria feita pelo amor de dois
jovens, membros de ambas as famlias.
No quarto ato, Lily ajoelhava-se, pedindo ao pai que abandonasse a velha
briga e permitisse o casamento do irmo Percy com sua amada. Lily
provava, nessa cena, seu excelente desempenho como atriz. Ela gritava:
- Ajude-nos! Ajude-nos, papai! O senhor  nossa ltima esperana!
Desistimos de tudo, mas salve o pobre Percy!
O aplauso foi estrondoso, as mulheres do auditrio choravam. O pano
baixou e subiu vrias vezes.
Um grande nmero de buques foi lanado ao palco. Lily apanhou um deles,
de rosas amarelas, que Cassandra sups ter sido atirado por Freddy.
Depois da execuo do Deus salve a rainha, Freddy e Cassandra correram
para o camarim de Lily e l esperaram que ela se trocasse.
Lily voltou logo com um vestido de cetim cinzento, tal qual uma deusa.
Enormes diamantes brilhavam em seu pescoo, orelhas e pulsos.
- Estou bem? - perguntou ela a Freddy.
- Cada dia mais bonita, meu amor!
- Ento, vamos. Todo mundo deve comparecer a essa festa, e no quero ser
eclipsada por nenhuma mulher.
- Isso ser impossvel!
Freddy beijou apaixonadamente o ombro nu de Lily, como se estivesse
sozinho com ela.
Cassandra mandara Hannah de volta ao apartamento de Bury Street.
- No vou quele lugar - protestara a empregada, furiosa.
- Vai sim! A menos que prefira que eu volte a Park Lane desacompanhada,
numa carruagem de aluguel. E s Deus sabe o que poder acontecer! De
qualquer modo, dispense nossa carruagem. Providenciaremos outra na volta.
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E, na confortvel carruagem de Freddy Gebhard, os trs rumaram para a
festa.
"Agora  o meu show que vai comear!", pensou Cassandra. "O pano sobe e
s peo a Deus que consiga representar bem, e de maneira convincente. "
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CAPTULO IV

A suntuosa casa de lorde Carwen ficava em Arlington Street, com magnfica
vista para o parque.
Cassandra, seguindo a sra. Langtry, entrou num hall feericamente
iluminado, com mobilirio luxuoso. Seu maior pavor consistia em encontrar
pessoas conhecidas.
A sra. Langtry assemelhava-se a uma deusa grega. O vestido tinha
anquinhas de onde saa um lao de cetim cujas pontas formavam uma pequena
cauda. Uma verdadeira lady, apesar do exagero das jias.
O vestido de Cassandra era bonito, mas no to ousado como o de Lily.
Verde-esmeralda, tinha ruches de tule no decote profundo e sobre os
ombros. Pequenas lantejoulas colocadas sobre o tule brilhavam a cada
movimento que ela fazia.
Hannah arrumara os cabelos de sua patroa com muitos cachos no topo da
cabea e, no meio deles, ela pusera trs pentes de diamantes. Cassandra
tinha brincos de diamantes, deixados a ela pela av, mas que sir James
nunca lhe permitira usar, por consider-los vistosos demais para uma
jovem da idade da filha.
Antes de entrar no salo, Cassandra olhou-se num espelho e ficou
satisfeita com sua aparncia. Ela retocara os lbios enquanto esperava
Lily trocar de roupa no camarim. Seus olhos no necessitavam de
artifcios, pois os clios eram naturalmente longos e escuros.
- Lily! Posso lhe dizer como estou feliz em ver seu lindo rosto? - uma
voz profunda exclamou.
Um homem de mais ou menos quarenta anos, alto, beijou a mo da sra.
Langtry.
- Trouxe uma amiga comigo - Lily disse. - Espero que voc no se importe.
- Mas claro que no! Fico at honrado com isso. Quer me apresentar sua
amiga?
- Srta. Sandra Standish - declarou a sra. Langtry. - E
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este, querida,  nosso querido e amvel anfitrio, lorde Carwen.
Cassandra fez uma graciosa reverncia e desculpou-se, sorrindo:
- Espero que Sua Senhoria me perdoe por ter vindo a sua festa sem ser
convidada.
- Perdoo tudo, se danar comigo daqui a pouco - replicou lorde Carwen.
Ele cumprimentou Freddy Gebhard em seguida:
- Encantado em v-lo, Freddy. Espero que minha festa se iguale s que
voc d nos Estados Unidos.
Cassandra no ouviu a resposta do sr. Gebhard. Observava o salo de
baile, cheia de curiosidade.
Era lindssimo, com enormes lustres e cheio de quadros e espelhos
valiosos.
Os homens eram todos muito distintos, a maioria da idade de lorde Carwen.
Mas as mulheres tinham aspecto estranho aos olhos de Cassandra.
" extraordinrio", pensava ela, "ver tantas mulheres bonitas juntas. "
A concluiu que, por usarem cosmticos, tinham aparncia mais agradvel
que as pessoas de seu grupo social, as quais no ousariam lanar mo
desses artifcios.
Olhos aumentados pela sombra, peles claras e rosadas, lbios vermelhos
que sorriam, formavam um quadro que fazia Cassandra entender por que os
homens se encantavam tanto com aquele mundo.
Os vestidos tambm chamavam a ateno. Jamais Cassandra vira tanto ombro
nu, tanto tule, tantas lantejoulas e tamanha profuso de flores
artificiais.
Mas a maioria das mulheres ostentava jia fantasia, o que no deixava de
acrescentar encanto  aparncia de cada uma delas.
Distrada, Cassandra assustou-se quando ouviu a voz da sra. Langtry bem
ao lado dela:
- Como esperava, o duque de Alchester est aqui. Deixeme apresent-la a
ele j, pois podemos ficar separadas nesta multido, e no conseguirei
cumprir a promessa que lhe fiz de apresent-lo.
Cassandra seguiu Lily e teve medo. Uma sbita timidez tomou
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conta dela. Quis fugir, mas depois disse a si mesma que estava sendo
ridcula.
Afinal, ela planejara aquilo. Era um sonho realizado. Agora, chegava o
momento! No havia lugar para embaraos ou timidez; precisava convencer o
duque de que era uma atriz jovem e ousada.
Logo chegou perto do homem que fora, por anos, o objeto de seus sonhos.
Era bem mais atraente que as fotografias dos jornais. Alto, espadado,
sobressaa-se na multido. Cassandra no esperava que ele tivesse aquela
natural dignidade e altivez.
O duque levantou-se imediatamente para cumprimentar a sra. Langtry.
- Contava com sua presena aqui, Varro - disse Lily. Mas consta que ainda
no assistiu ao meu novo show.
- No por falta de vontade. No consegui at agora uma entrada.
Os olhos dele brilhavam enquanto falava e, ao sorrir, exibia uma covinha
do lado esquerdo da boca.
" incrivelmente lindo!", Cassandra pensou. "Muito mais do que eu
imaginava! No pode haver uma s mulher em toda Londres que no queira se
casar com ele! "
- Voc no devia ser to famosa, Lily - acrescentou ele.
- Nunca houve filas assim longas  porta do Prince's Theater, dia aps
dia.
- Voc precisava ter visto o que foi nos Estados Unidos interps Freddy,
que acabava de unir-se ao grupo naquele instante.
- Alo, Freddy! - exclamou o duque. - Quando vai tomar um drinque comigo
no clube?
- Na prxima vez que Lily no precisar de mim.
- Eu sempre preciso de voc - replicou Lily, amorosamente.
- Neste caso, retiro meu convite - declarou o duque. Quem sou eu para
interferir na vida de duas pessoas que se agradam tanto da companhia uma
da outra?
- Olhe, Varro - disse Lily -, trouxe aqui comigo uma pessoa que est
muito ansiosa por conhec-lo. Tem algo a lhe revelar, que espero seja
interessante.
A sra. Langtry virou-se para Cassandra e acrescentou:
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- Srta. Standish, apresento-lhe o duque de Alchester. Varro, esta  a
srta. Sandra Standish, uma jovem muito talentosa.
Cassandra estendeu a mo e, quando o duque a tomou, teve a estranha
sensao de que isso j havia acontecido antes. No poderia explicar
como nem quando. Era como se esse episdio j tivesse tido lugar no
uma, mas dezenas de vezes, atravs dos tempos.
- Tem algo a me contar? - indagou o duque, erguendo as sobrancelhas.
- Sim. Mas  impossvel aqui, com esse vozerio todo.
A orquestra tocava os primeiros acordes de uma valsa, e Freddy anunciou a
Lily:
-  uma de nossas preferidas.
Sem esperar pela resposta, ele ps a mo na cintura dela e levou-a para o
centro do salo. O duque e Cassandra ficaram sozinhos, entreolhando-se.
- Quer danar comigo? - pediu ele.
- com muito prazer.
Ela estremeceu quando o duque a pegou pela mo. Depois giraram pela pista
e combinaram os passos de maneira perfeita.
Contudo, falar com ele seria impossvel. O rudo das vozes, da msica,
no o permitiria.
Terminada a dana, os dois foram para um canto do salo.
- Vamos procurar um lugar mais sossegado onde possamos nos sentar? -
sugeriu o duque.
Ele conduziu-a a outro aposento. Cassandra sups tratar-se de um
escritrio. Era lindamente decorado, com peas francesas que deviam ter
custado uma fortuna. A fragrncia das flores enchia a sala, iluminada
suavemente.
Havia um sof de costas para a janela e o duque convidou Cassandra a nele
sentar-se, ao lado dele.
- Quem  voc? - perguntou. - E por que nunca nos encontramos antes? J
tinha ouvido falar de mim?
- Claro. Tem a reputao de ser atraente, brilhante e  muito popular.
- Santo Deus! - O duque ergueu os braos num gesto de horror. - Quem lhe
contou essas mentiras todas sobre mim?
- Em minha profisso - explicou Cassandra -, fala-se sobre
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Vossa Graa tanto quanto sobre os shows em exibio pela cidade.
- Acho que est caoando de mim, Sandra. Por acaso a ofendi?
- Ao contrrio. Mas, como disse a sra. Langtry, estava ansiosa por
conhec-lo.
- Qual a razo, posso saber?
- Existem duas: uma, por mera curiosidade; a outra  sria e um pouco
triste. Por qual devo comear?
- Bem... Neste tipo de reunio, prefiro no entrar em assuntos srios.
- Minha curiosidade  saber o motivo de uma pessoa dotada como Vossa
Graa preferir o teatro a qualquer outra espcie de passatempo.
Assim que falou, Cassandra considerou-se atrevida. Porm, queria mesmo
provoc-lo.
- Como sabe que prefiro o teatro, Sandra?
- Surpreende-se pelo fato de eu saber ler?
- Refere-se aos jornais? No devia nunca dar crdito a tudo que l nestes
farrapos obscenos.
- No obstante, no podem inventar tudo o que dizem a seu respeito. Li,
por exemplo, que obteve o primeiro lugar em Oxford, e que considerou um
dia abraar a carreira diplomtica. Suponho que fale vrias lnguas.
- Isso aconteceu h muito tempo. Fui ambicioso um dia, mas conclu que
minha ambio exigiria enorme esforo de minha parte.
- Acho que as pessoas so mais felizes quando fazem coisas que as
interessam e que exigem esforo.
-  o que voc faz?
- Sim, sempre me interesso pelo que fao - replicou Cassandra com
honestidade.
- Fale-me agora sobre voc.
- O que quer saber?
- Est atuando no teatro neste momento?
- No. Vim a Londres para tomar aulas de canto. Tenho uma chance de
conseguir uma boa participao numa comdia musical, porm minha voz
ainda no  suficientemente forte, e preciso praticar pelo menos durante
um ms.
- Quem est providenciando isso para voc?
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Cassandra no esperava por essa pergunta e necessitou pensar um pouco
antes de responder:
- Um... amigo.
To logo falou, o duque fixou o olhar nos diamantes de seus brincos e dos
pentes. Admitiu, com certeza, que um homem pagara por eles.
Cassandra corou. Acalmou-se logo, contudo. Afinal, era o que se esperaria
de uma artista de teatro. Recordou-se de que o pai dissera que os homens
davam presentes s coristas que levavam para jantar.
- Quer dizer que pretende passar um ms em Londres! murmurou o duque. -
Vai estar ocupada o tempo todo?
- Posso conseguir... umas horas vagas - replicou Cassandra com um
sorriso.
- Quer ir ao teatro comigo uma noite destas?
- Adoraria - respondeu Cassandra. - No ia ao teatro em Londres h anos,
at esta noite em que assisti Inimigos.
- O que achou?
- Penso que a sra. Langtry  magnfica.
- Sim, ela  formidvel! - concordou o duque. - Mas, agora, conte-me a
razo triste que a trouxe a mim.
Cassandra havia esquematizado tudo.
- Recorda-se de um cavalario de seu pai, de nome Abbey?
O duque concentrou-se antes de perguntar:
- Um homem que trabalhou em Alchester h muitos anos, quando eu era
menino?
- - Esse mesmo - confirmou Cassandra. - Eu o conheci j bastante velho.
Costumava visit-lo no chal onde morou ao se aposentar.
- Naturalmente que me lembro do velho Abbey! - exclamou o duque. - Ele
devia ter uns cem anos quando voc o conheceu!
- Tinha oitenta e sete anos ao morrer - declarou Cassandra. - Pediu-me,
se eu tivesse a oportunidade de conhecer o filho do duque de Alchester,
que lhe dissesse que ainda guardava a ferradura que ele lhe dera.
- Santo Deus! - gritou o duque. - Lembro-me do incidente muito bem! Abbey
era um jogador inveterado. Nunca tinha um centavo no bolso.
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- Ouvi falar isso tambm - concordou Cssandra com um
sorriso.
- Um dia, samos, juntos a cavalgar - contou o duque. paramos para um
descanso e eu encontrei uma ferradura.
- Olhe, Abbey - gritei -, achei uma ferradura.
-  mesmo, master Varro? Vai lhe trazer sorte.
- Guarde-a ento para voc, Abbey. Precisa de mais sorte do que eu.
- Isso foi exatamente o que ele me contou - afirmou Cassandra com
alegria. - A ferradura ficou sobre o bufe do chal at o dia em que ele
morreu.
- Nunca mais pensei em Abbey - observou o duque. Mas tenho uma vaga ideia
de que foi trabalhar para um amante de cavalos de corrida chamado sir
James Sherburn. Verdade?
- Acho que sim - sussurrou Cassandra. - Quando o conheci, j estava muito
velho para trabalhar. E s falava sobre cavalos.
- E pode haver assunto mais interessante? - indagou o duque. - Exceto, 
claro, mulheres bonitas!
- Creio que Vossa Graa  bom juiz para ambos.
- Mais uma vez voc me deixa convencido. vou lhe confessar uma coisa: no
posso resistir a um bom cavalo ou a uma linda mulher! E voc 
lindssima, Sandra.
Cassandra sentiu o sangue subir-lhe s faces. Fez esforo para dizer:
- Vossa Graa  tambm perito em elogios!
- Fala com uma ironia que no me agrada! - acusou-a ele.
- Como convenc-la de que estou sendo sincero? com certeza, fora de
Londres, deve haver homens que tm olhos, mas Que so completamente
cegos.
- Eles vem muito bem, mas so menos loquazes que os homens de Londres!
O duque deitou a cabea para trs e deu uma sonora gargalhada.
- Voc tem resposta para tudo. Venha, vamos danar. Imagino que, sendo
uma recm-chegada a Londres, no tenha muitos amigos aqui esta noite.
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- Estou a seus cuidados - replicou Cassandra.
- Cuidarei de voc, e isso  coisa, eu lhe garanto sem convencimento, que
fao muito bem.
Eles foram para o salo. Cassandra teve enorme prazer em danar com o
duque, em sentir que o tule de seu decote roava o peito da camisa dele.
- Voc dana maravilhosamente bem! - comentou o duque. - Dana no palco?
- Sou melhor atriz... que danarina.
A um dado momento, foi anunciada uma exibio do cancan.
- Vamos ver isso - declarou o duque. -  sempre divertido.
Cassandra lera sobre a introduo do cancan em Londres. Trazido de Paris
por trs irmos, dois homens e uma mulher, foi apresentado pela primeira
vez no Music Hall de Oxford. O teatro enchia todas as noites.
O cancan era considerado uma dana imoral, mesmo na opinio de peridicos
pouco conservadores.
Foi proibido de ser danado no Alhambra, por causa do escndalo causado
pelo exagero dos passos de uma jovem chamada Wiry Sal.
Cassandra sempre teve curiosidade em saber o que havia de to escandaloso
na dana. Naquele instante, iria descobrir.
As danarinas eram consideradas de primeira qualidade pela maioria das
mulheres presentes  festa e, nos saltos que executavam, exibiam o que
usavam sob a saia... e o que no usavam!
A dana iniciou-se com os aplausos dos cavalheiros. As danarinas erguiam
as pernas bem para o alto, girando pelo salo. Ficavam com o rosto cada
vez mais corado, os cabelos esvoaando, e expunham toda a roupa ntima.
Cassandra ficou realmente chocada.
O duque divertia-se, mas no gritava nem aplaudia com o mesmo entusiasmo
dos outros homens, que se empenhavam, parecia, em animar as garotas a dar
pulos ainda mais altos.
Cassandra considerou a cena degradante.
- Est... muito quente aqui - murmurou, indo para perto de uma janela.
52
O duque seguiu-a e perguntou:
- Nunca tinha visto um cancan antes?
- No, no.
- Surpreendeu-se? No  o que esperava?
- No.
- . Tive a impresso de que se chocou.
- ... um tanto... chocante mesmo - concordou Cassandra.
- Entendo. Penso que essas extravagncias ainda no chegaram ao norte da
Inglaterra.
- No, no chegaram.
As danarinas, aps o trmino do espetculo, caam exaustas sobre as
cadeiras, ou mesmo no cho. E a orquestra passou, da msica exuberante, a
uma valsa dolente.
Cassandra esperava que o duque a convidasse de novo para danar, quando
algum lhe disse:
- Voc prometeu-me uma dana, moa linda! Lembra-se? Era lorde Carwen.
- Espero que Varro a tenha tratado bem - acrescentou ele.
- Foi muito amvel - sussurrou Cassandra.
- Agora, quero ver se posso me igualar a ele.
Lorde Carwen pegou Cassandra pela cintura e os dois comearam a danar.
Ele a apertava um pouco demais, pensou Cassandra.
- Voc  linda, Sandra!
- E Vossa Senhoria tem uma casa linda.
- No estou interessado em minha casa, mas na linda mulher que aqui se
encontra - replicou ele. - Lily Langtry disseme que voc acabou de chegar
a Londres. Permita-me que lhe mostre alguns divertimentos que a cidade
oferece!
- Obrigada, mas estarei muito ocupada com minhas aulas de canto.
- Para que tomar aulas? - Lorde Carwen riu muito. - S se apresentar no
palco como est agora que ter o teatro cheio por noites a fio. Isso, se
se interessa mesmo pelo teatro. H coisas mais convidativas a fazer.
- O qu, por exemplo? - indagou Cassandra ingenuamente.
- Posso lhe explicar em detalhes - respondeu lorde CarWen, apertando-a
com mais fora ainda.
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Cassandra concluiu que o detestava. No apenas por trata-la de maneira
familiar, mas havia qualquer coisa desagradvel nele, como homem.
Desde criana ela raramente errava no julgamento do car ter das pessoas.
Sir James costumava pedir-lhe a opinio sobre as visitas que iam a at
Towers.
- Que achou daquele homem? s vezes Cassandra dizia:
- Ele no  mau, mas no muito inteligente. Outras vezes ela recomendava:
- No faa negcios com ele, papai. No  indivduo honesto! Tem uma
coisa nele que me desagrada.
com o passar do tempo, sir James chegava  concluso de que a filha
acertara. Em certa ocasio, ele disse a Cassandra:
- Lembra-se do homem contra o qual voc me preveniu?
- Lembro-me - respondeu Cassandra.
- Pois bem, ele foi condenado a oito anos de priso por fraude.
Cassandra sabia no estar errada em seu julgamento acerca de lorde
Carwen.
- Quer jantar comigo amanh? - ele lhe perguntou. - Preciso falar com
voc.
- Obrigada, mas tenho outro compromisso - Cassandra apressou-se em
responder.
- Est querendo se fazer de difcil, Sandra? Eu sou insistente e sei que
vamos nos encontrar muitas vezes.
- O senhor d festas aqui frequentemente?
- Dou tantas quantas meus amigos quiserem. Pergunte a Varro. E ele lhe
dir tambm como sou generoso com as pessoas... que gosto.
- Obrigada pela dana - disse Cassandra, procurando se afastar.
Mas lorde Carwen segurava-a pela cintura. Por sorte, naquele momento,
alguns recm-chegados exigiram a ateno dele. Bem depressa, Cassandra
fugiu.
O duque estava sozinho, apoiado numa coluna na outra extremidade do
salo. Ela quase correu para l.
- Vamos  sala do buf, Sandra? Ou, melhor ainda, vamos escapar daqui e
jantar noutro lugar?  possvel fazermos isso?
- Por que no? Venha comigo. Conheo uma sada discreta, e nem precisamos
nos despedir de nosso anfitrio.
Como dois espies, eles atravessaram vrias salas.
- No me diga que vai embora j, Varro? - uma linda mulher que eles
encontraram pelo caminho perguntou.
- vou, sim.
- Que decepo!
- Verei voc amanh ou depois.
- V ao meu camarim no intervalo, para um drinque.
- Irei - retrucou o duque.
J na rua, ele perguntou a Cassandra:
- Voc se importa se tomarmos um cabriole? Tenho s um cocheiro em
Londres, e ele est muito velho. Mandei-o de volta a casa  meia-noite.
- Adoraria andar de cabriole.
Ela sabia que era muita ousadia andar sozinha com um homem num cabriole.
Disraeli o apelidara de "a gndola de Londres".
Quando tinha quinze anos, seu pai a levara um dia para um passeio num
desses veculos, mas homem algum de suas relaes se atreveria a sugerir-
lhe tal coisa.
Dentro do veculo, o duque tomou-lhe a mo.
- Estou muito contente por voc ter consentido em vir comigo - disse ele.
- Quero conversar com voc. Quero ouvir aquela nota de provocao em sua
voz que me faz perceber que no est nada impressionada comigo.
Cassandra tremia. O toque da mo dele lhe dava arrepios pela espinha. Ela
vibrava ao calor dos dedos do duque, ao contato dos ombros de ambos, 
proximidade dos rostos. - Voc  linda, Sandra! Absurdamente linda! Como
 possvel que tenha olhos azuis e cabelos ruivos com reflexos dourados?
- Deve haver sangue irlands em minhas veias. Cassandra tinha dificuldade
em falar. Sua garganta se contraa, quase fechava.
- E seus clios! - prosseguiu o duque. - Voc os escurece?
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- No, so naturais.
- Se est mentindo, posso tirar a prova. vou lav-los.
- Pode.  o que os irlandeses chamam de "olhos azuis colocados no rosto
por dedos sujos". E juro a Sua Graa que eles resistem s tempestades. A
gua no tem efeito sobre eles.
- Ainda quero tentar.
Atravessaram o Trafalgar Square. O duque comentou:
- H tantas coisas que desejo perguntar a voc! Estou encantado por no
termos permanecido naquela festa barulhenta!
Enquanto falava, o duque tirou muito gentilmente a luva de Cassandra.
Olhou para a palma da mo direita.
- Que mozinha linda! - disse, pressionando os lbios contra ela.
Cassandra achou que devia protestar, mas sua voz morreu na garganta. Foi
maravilhoso sentir o calor daquela boca, e ver que seus sonhos se
transformavam em realidade.
Depois, desconfiou que tudo no passava de uma representao teatral. No
estava ela fingindo ser uma atriz? E ele? Talvez tambm.
Era apenas um divertimento. Apenas o borbulhar de uma taa de champanhe!
Nada real, nada srio, nada permanente.
O duque continuava segurando-lhe a mo.
- Chegamos! - anunciou ele. - Acho que vai gostar do Romano's.
Cassandra sabia que o restaurante era famoso; ouvira falar sobre ele com
muita frequncia, mas jamais esperara que fosse to alegre.
A sala oval, de cortinas vermelhas e sofs macios, estava repleta de
homens e mulheres jantando, aps o trmino dos teatros.
A maioria das mulheres era composta de coristas, imaginava Cassandra,
concluindo pelo modo como se vestiam.
Todas tinham flor nos cabelos e blusas decotadas. Enchiam o restaurante
de alegria com suas risadas.
Romano, o dono do local, um homenzinho moreno, saudou o duque
respeitosamente e conduziu-o a uma mesa.
Cassandra notou que pelo menos trs quartos das mulheres do restaurante
conheciam o duque, pois sorriam e acenavam para ele.
Havia flores por toda parte, e ela soube, mais tarde, que as coristas
possuam mesas reservadas para elas por seus admiradores.
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Era um restaurante diferente de qualquer outro, e mais uma vez Cassandra
pde entender por que o duque se divertia tanto nesse mundo teatral.
O sof onde se sentaram era muito confortvel.
O garom trouxe a carta de vinhos, manuscrita, e a ps diante deles.
- O que voc quer comer, Sandra? - indagou o duque.
- Muito pouco. No estou com fome, Vossa Graa. Pode fazer o pedido para
mim?
O duque escolheu os pratos e encomendou uma garrafa de champanhe, que foi
logo colocada ao lado da mesa, num balde de prata.
Cassandra teve oportunidade de presenciar o que lera tantas vezes nos
jornais e no acreditara: champanhe sendo bebido num sapato de cetim
branco de uma mulher cuja mesa estava ornamentada de orqudeas caras. Seu
admirador encheu o sapato de champanhe e levantou-se para brindar. Os
outros homens do grupo ergueram suas taas.
- Quem  ela? - perguntou Cassandra.
- No sabe?
- No tenho ideia.
-  Connie Gilchrist. Nunca ouviu falar sobre ela?
- Sim, ouvi - respondeu Cassandra. - Reconheo agora as fotografias dos
jornais, mas  mais bonita em pessoa.
-  muito atraente - concordou o duque. -  a opinio da metade dos
homens de Londres.
- Vossa Graa a ama?
- No - foi a resposta concisa do duque.
- Neste caso, quem Vossa Graa ama? Minha pergunta  indiscreta?
O duque fitou-a com olhos penetrantes. - Voc est sendo muito direta. J
me fez vrias perguntas ltimas, mas no respondeu s minhas. Agora 
 minha vez de Perguntar.
- Muito bem - retorquiu Cassandra. - O que deseja saber? - Tenho a
impresso de que h muita coisa por trs do que
voc diz. Mas o que quero saber no consigo pr em palavras, esse  o
problema. No estou me explicando bem, contudo tenho a sensao de que
voc entende o que tenciono dizer.
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- Acho Vossa Graa muito perspicaz. Quando encara as pessoas, tem
curiosidade no olhar.
- Como sabe, Sandra? Muita gente j me falou isso, mas gente que me
conhece bem. E ns acabamos de nos encontrar.
- Sim... eu sei - concordou Cassandra.
- Adivinho o que est pensando, e acredito que sinta o msmo que eu:
que no somos estranhos um ao outro.
- Por que ser? - indagou Cassandra, apesar de concor dar com a alegao.
- No sei, mas vou descobrir.
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CAPTULO V

Cassandra e o duque conversavam e o tempo passou rapidamente. Foi com
imensa surpresa que, a um dado momento, ela constatou que eram quase trs
horas da madrugada.
Nunca antes jantara sozinha com um homem, excetuandose seu pai.
Achou interessante conversar com o duque, sentir o estmulo da mente dele
e, acima de tudo, perceber que seus olhos diziam muito mais que os
lbios.
No havia dvida quanto  admirao que ela lhe despertava.
Existia algo muito pessoal na conversa deles, que fazia do assunto mais
banal um tema importante para ambos.
Ao falarem sobre cavalos, o duque observou:
- Voc parece ter cavalgado muito.
- Sim, muito - respondeu Cassandra, mas logo acrescentou: - Talvez seja
mais fcil no norte da Inglaterra que em Londres.
- Menos dispendioso, isso  certo. Mas garanto que, a qualquer lugar onde
v, existiro homens para lhe fazer companhia.
Cassandra se deu conta de que uma atriz no teria condies de possuir
cavalos nem tempo para se dedicar ao esporte da caa. Procurou retificar
dizendo:
- Meu pai cuida de cavalos.
- Seu pai mora no norte?
- Mora.
- Gostaria de ver voc montada num cavalo - declarou
O duque. - Falando nisso, quer ir comigo a Tattersall amanh?
- Ao lugar onde se faz o leilo de animais?
- Sim.
- Amanh  sexta-feira - lembrou-o Cassandra. - Pensei
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que as vendas se realizassem nas segundas e que se poderia
inspecionar os cavalos no domingo.
- Isso  certo para a maioria do pblico, porm meus cavalos estaro
chegando a Knightsbridge Green amanh de manha, vindos de meus estbulos
em Alchester Park.
- Vossa Graa vai vend-los?
- Vendo as ltimas vinte montarias dos estbulos de meu pai - explicou o
duque com pesar.
- No faa isso! Os cavalos de seu pai so famosos.
- Tenho de vend-los.
- Mas por qu?
- No acha bvio o motivo? - O duque esboou um sorriso. - Por que uma
pessoa vende coisas que estima?
Cassandra ficou silenciosa. No entendia mais nada. Se o duque tencionava
se casar com a rica srta. Sherburn, por que dispor dos preciosos cavalos?
Percebeu, pela expresso dos olhos do duque, que os animais significavam
tanto para ele como haviam significado para o pai. O haras de Alchester
era fabuloso, e o velho duque vencera grande nmero de competies com
seus animais. Fora tambm notvel patrono do turfe, um membro do Jquei
Clube, e to conhecido que, a qualquer lugar onde comparecesse na pista
de corrida, era aclamado.
Parecia incrvel a Cassandra que o novo duque tivesse de acabar com o
haras que o pai construra com amor e considervel soma de dinheiro.
Ela procurava um meio de fazer certas perguntas que lhe queimavam a
lngua, quando o duque disse:
- Eu gostaria de ver meus cavalos.  minha ltima oportunidade, exceto
talvez quando correrem sob as cores de outros proprietrios. Eu no
aguentaria ir ao leilo segundafeira.
- Entendo - replicou Cassandra. - Mas, se precisa tanto de dinheiro, deve
possuir outros bens para vender.
- E acha que no pensei nisso, Sandra? No, no tenho nada.
Nesse momento, o grupo de Connie Gilchrist retirava-se do restaurante.
As vozes das mulheres eram to altas e estridentes ao se despedirem que
foi impossvel a Cassandra e Varro continuarem com seu dilogo.
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Connie Gilchrist foi  mesa do duque. Ele levantou-se  aproximao dela.
- Como vai, Varro? No o vi nesta ltima semana - disse Connie.
- Estive fora de Londres - replicou o duque. - Voltei esta noite, tarde
demais para ir ao teatro.
- Todas ns nos perguntvamos o que havia acontecido com voc.
Connie era loira e muito bonita, mas tinha a voz um tanto spera.
- Espero v-lo amanh - disse Connie. - Boa noite, Varro.
- Boa noite, Connie.
Ela correu ao encalo dos amigos e o duque tornou a sentarse ao lado de
Cassandra.
- No apresentei voc - disse ele. - Queria conhec-la?
- Fiquei muito satisfeita em admir-la de longe.
- Connie  um grande chamariz no teatro. vou levar voc uma noite para
v-la;  divertida.
- Obrigada - agradeceu Cassandra.
O duque pediu ao garom que enchesse as taas de novo.
Cassandra achou que estava na hora de voltar a casa, mas, ao mesmo tempo,
no queria que a noitada terminasse.
Talvez no dia seguinte ele se esquecesse dos vrios convites que lhe
fizera. Ou talvez no a tivesse achado interessante ou atraente como
esperara.
"Preciso pensar num jeito de diverti-lo", dizia a si mesma.
- Qual seu objetivo principal em sua atuao no teatro? Perguntou-lhe o
duque de repente.
- Tentarei prender a ateno do pblico da melhor maneira possvel.
- Essa no  a resposta da maioria das artistas - comentou o duque. -
Elas em geral concentram-se no papel que rePresentam e transformam-se na
pessoa que retratam.
- Suponho que seja a maneira correta.
- E so felizes! - exclamou o duque. - Representam um Papel e o descartam
depois. Assim que deixam o palco, voltam a ser elas mesmas. No ficam
fingindo o tempo todo.
Havia uma nota em sua voz que fez Cassandra desconfiar que ele se referia
a si mesmo.
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- Acho que o que tenta dizer - observou ela -  que as pessoas que no
trabalham no palco esto representando constantemente na vida real. No
se esquea do que disse Shakespeare: "O mundo todo  um palco e tanto
homens como mulheres no passam de atores e atrizes".
- Isso pode ser verdade - concordou o duque. - Mas o mal  que s vezes o
show da vida  longo demais. No h escapatria. Apenas os artistas do
palco podem mudar seus papis, como j disse. Por isso so mais livres
que as pessoas comuns.
- Acha isso interessante? Muitas vezes os artistas so forados a
submeter, com grande esforo, suas personalidades ao papel que
representam. E  um esforo que eu admiro acima de tudo.
- Que quer dizer com isso? - interrogou o duque.
- Se um ator tem personalidade forte,  difcil escond-lo sob os
disfarces de que se utiliza. Por exemplo: esta noite, quando vi Lily
Langtry no teatro, no conseguia pensar na mulher infeliz e suplicante
que tentava salvar o irmo, mas na atuao magistral dela.
- Nunca julguei o teatro sob esse prisma - sussurrou o duque. - Voc
destri minhas iluses acerca do palco.
- Acho que Vossa Graa se prende ao enredo da pea porque no est
satisfeito com seu papel na vida real.
- E quem gostaria de representar o papel de um duque? indagou ele.
- Grande nmero de pessoas. , na verdade, o papel de um heri. Porm,
ser ou no ser um heri depende da pessoa.
- Acredita realmente nisso, Sandra?
- Claro!  necessrio admitir que cada indivduo possui uma misso a
cumprir na vida. Um advogado tem de ser um advogado; se  bom ou mau,
depende dele. O mesmo se aplica a um vendedor, a um operrio, ou a um
duque. Acho que na vida no podemos alterar nossa posio, mas podemos
melhorar nosso desempenho!
O duque fitou-a por longo tempo, depois opinou:
- Voc  uma pessoa impressionante, Sandra. Deu-me muito em que pensar.
Algo que no imaginei que fosse acontecer esta noite.
- Que esperava para esta noite?
- Esperava divertir-me, passar o tempo rindo. Voc  uma das pessoas mais
maravilhosas que j conheci.
- Outra vez fala o perito? - indagou Cassandra, rindo
muito.
- Naturalmente! Voc abriu-me novos horizontes, destrancou portas que eu
supus intransponveis. Como posso descrever a influncia que teve sobre
mim?
Cassandra sentiu-se embaraada. Enquanto discutiam, o restaurante
esvaziava-se, e apenas sobraram dois ou trs casais e garons sonolentos.
- Acho... que preciso ir para casa - declarou ela.
- Suponho que sim.
O duque pediu a conta. Saram. Romano esperava-os  porta com um buque de
rosas vermelhas para Cassandra.
- Quer aceitar isto? Sua Graa trouxe muitas mulheres bonitas ao meu
restaurante, mas esta noite a senhorita eclipsou a todas.
- Obrigada - replicou Cassandra, corando.
Ela pegou as rosas e o porteiro chamou uma carruagem para o duque.
- Amanh almoar comigo - insistiu ele. - vou arranjar um veculo mais
digno de voc. Envergonho-me por havla tratado esta noite em condies
to miserveis.
- Foi uma noite maravilhosa.
A carruagem cheirava a feno, couro velho e cavalo. Mas oferecia um
ambiente ntimo e Cassandra percebeu que, quando o duque passou o brao
em volta de seus ombros, pensava a mesma coisa.
Sentiu um frenesi percorrer-lhe o corpo. Porm, no momento em que ele
chegou-se mais perto, Cassandra viu que ia beijla e virou o rosto,
dizendo:
- No!
- No? Quero beij-la, Sandra. Quero muito!
- Acabamos de... nos conhecer...
Era difcil a Cassandra raciocinar com o brao dele em torno de seus
ombros. Uma fraqueza tomou conta dela, combinada a uma espcie de
excitao que no lhe permitia pensar com clareza.
- A mim parece que a conheo h anos - retrucou o duque. - Fomos
destinados um ao outro. O acaso nos uniu! O
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acaso. Voc  to linda, to diferente de qualquer mulher que atravessou
meu caminho! O que digo soa como banalidade, mas  real. No posso
explicar-lhe em palavras, mas sei que voc  diferente.
- Em que... sentido? - balbuciou Cassandra.
- vou lhe dizer, mas no hoje. No quer que a beije e obedecerei, apesar
de eu ter a impresso de que, se insistir, voc no resistir. Porm,
como quero que me considere uma pessoa especial, no a beijarei at que o
consinta. Todavia, no me faa esperar muito... - Aps uns minutos de
silncio, ele exclamou:
- O tempo  curto! A areia da ampulheta escoa mais depressa do que eu
supunha.
- Que quer dizer com isso?
- Voc no entenderia. Apenas lhe suplico, Sandra, que me deixe segurar
esse pouco de felicidade que est em minhas mos agora.
- Fala... como se fosse... partir para sempre - sussurrou ela.
-  o que vai acontecer - confirmou o duque. - Antes disso, quero ver
voc, preciso ver voc.
Inesperadamente, ele retirou o brao dos ombros de Cassandra e encolheu-
se no canto da carruagem.
- Voc, com certeza, me acha misterioso - disse ele. Infelizmente, no
posso lhe expor a razo de meu procedimento.
- O que... Vossa Graa... sente por mim?
-  necessrio que eu responda? - perguntou o duque. Qualquer coisa muito
fora do comum passou-se comigo, e quero me convencer de que o mesmo tenha
acontecido com voc. Olhe para mim, Sandra!
Ela fitou-o.
- Voc  to linda! - exclamou ele com voz rouca. - In crivelmente linda!
Oh, Deus! Por que haveria eu de encontra la logo neste momento crucial de
minha vida?
O duque apanhou Cassandra no dia seguinte ao meio-dia meia.
Ela pedira-lhe que no fosse busc-la muito cedo porque teria de
explicar  tia que iria almoar Fora, e teria tambm
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de ir ao apartamento a fim de trocar de roupa.
O problema mais difcil foi Hannah que, tendo esperado-a at trs horas
da madrugada na noite anterior, estava de pssimo humor. Na volta do
apartamento de Bury Street a Park Lane, a empregada resmungara o tempo
todo, ameaando retornar a Yorkshire e contar a sir James o que estava se
passando.
Cassandra conseguiu acalm-la, mas no foi fcil convencla, naquela
manh, a voltar ao apartamento e ajud-la a trocar de roupa.
O vestido que Cassandra usava quando o duque chegou era muito bonito,
apesar de um pouco vistoso demais, para lhe dar a aparncia de uma atriz.
De seda na cor do ouro velho, enfeitado de veludo, a saia era drapeada na
frente, formando anquinhas nas costas. A curta jaqueta chegava at a
cintura e era enfeitada de pele, fechada com botes imitando topzios.
Por ter jias verdadeiras, Cassandra no resistiu  tentao de usar
broche, brincos e pulseira de topzio.
O chapu, enfeitado de plumas amarelas, era preso sob o queixo com fitas
de veludo.
Cassandra estava pronta quando o duque chegou.
Ele examinou o apartamento, decorado com pssimo gosto, e perguntou:
-  seu? No! Claro que no!  o apartamento de Hetty Henlow. J estive
aqui antes, h muitos anos.
- Vossa Graa conhece minha locatria? - Cassandra sorria.
- Conheo o velho lorde Fitzmaurice, que paga o aluguel
- replicou o duque. - Ele  membro de meu clube e mantm Hetty h anos.
Cassandra sentiu-se envergonhada por causa de o duque a Ver naquele
lugar.
Antes, o apartamento lhe parecia perfeito para sua finalidade, mas,
naquela hora, estando apaixonada, no podia aguentar que ele a comparasse
a qualquer coisa to crua e imoral.
- Vamos? - pediu ela.
Sem esperar pela resposta, Cassandra abriu a porta e comeou a descer as
escadas. O duque seguiu-a.
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Quando chegaram  rua, ela viu um elegante faetonte puxa do por dois
cavalos, que os esperava.
-  sua essa carruagem? - perguntou Cassandra.
-  a nica que me restou - replicou ele.
- No vai vender tambm seus ces de caa, vai?
- Muitos deles j foram vendidos - respondeu o duque, abruptamente.
Por que, aps ter escrito para seu pai, tornando claro que estava
preparado a se casar, ele necessitava fazer tanto s crifcio?
"No entendo mais nada", ela repetiu muitas vezes.
- Voc est linda - disse o duque, tentando mudar de assunto. - Todos os
homens de Londres vo ter inveja de mim.
Era o tipo de comentrio que um homem faria a uma atriz mas Cassandra
ressentiu-se disso. Depois, concluiu que estava sendo ridcula.
- Eu  que estou muito honrada em sair na companhia de pessoa to
distinta - comentou ela.
- Devo ficar convencido, Sandra? Ou suspeitar que voc tenha um motivo
para ser to amvel comigo?
- Preciso ter... um motivo?
- No, mas receio pr em sua mente os pensamentos que desejo que voc
alimente.
Eles voltaram ao ponto da conversa da noite anterior degladiando-se com
palavras, insinuando ideias.
Cassandra tinha a impresso de que, enquanto estiveram S parados, o
duque pensara nela tambm, mas que chegara  concluso de que o
relacionamento entre eles deveria ser alegre, no srio.
Assim, procurou entrar no jogo dele, porm, sob a superf cie de
descontrao, havia um vislumbre de seriedade que ne nhum dos dois
ignorava.
O duque levou-a ao Caf Royal, em Regent Street, lugar famoso tanto para
o almoo como para o jantar. Era o nico rstaurante em Londres onde se
servia uma excelente e autntica omida francesa.
Cassandra achou-o fascinante. A enorme sala com cadeira de assento
estofado abrigava uma mistura de pessoas clebres de todos os patamares
da sociedade.
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- Conte-me quem  cada uma dessas pessoas - pediu ela ao duque.
Divertindo-se com a curiosidade de Cassandra, ele comeou a apontar os
atores, falsrios, jqueis, homens com cargos confidenciais, treinadores,
apostadores profissionais, todos se deliciando com a fantstica comida e
degustando o vinho da adega conhecida como a melhor de Londres.
Quando Oscar Wilde entrou, plido, elegante e satisfeito consigo mesmo,
Cassandra exclamou, excitada:
- Sempre quis conhec-lo. Adoro os poemas dele. Porm, meu pai o
classifica de terrvel poseur.
- E ele , mas no deixa de ser um grande talento tambm.
Havia muitas mulheres no restaurante, mas todas artistas ou pertencentes
a uma categoria de pessoas com quem Cassandra jamais tivera contato.
Todavia, aps seu interesse inicial, ela passou a dar ateno apenas ao
duque.
Mais uma vez achou fcil conversar com ele, discutir sobre os mais
variados temas.
Quando, enfim, tomaram o rumo de Tattersall, Cassandra sentia-se feliz
como na noite anterior. Nunca apreciara tanto uma refeio.
Em Tattersall, aos domingos, os cavalos eram apresentados aos compradores
em enormes gramados verdejantes. Mas havia no local setenta e cinco baias
e vinte e cinco estbulos para as guas reprodutoras. No andar superior
ficava a galeria, servida por elevadores, onde se guardavam as carruagens
e os arreios.
Cavalarios, em mangas de camisa, andavam pelas baias carregando baldes
de gua, sempre assobiando.
O duque parecia outro homem. Esquecera-se da existncia dela.
Seu cavalario informou-o de que quase todos os cavalos de Alchester
tinham feito boa viagem, excetuando-se um que ficara nervoso ao chegar.
- Tente conserv-los calmos em suas baias - recomendoulhe o duque.
-  o que vou fazer, Vossa Graa! Um animal nervoso nunca cana bom preo
no mercado.
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- Isso  verdade.
O duque levou Cassandra para ver os cavalos. Eram, sem dvida,
magnficos.
- Quero mil libras por este - declarou o duque, apontando para um dos
animais. - J ganhou trs corridas e com certeza vencer a taa de ouro
em Ascot.
- No seria mais interessante conserv-lo? - opinou Cassandra, sabendo
que o primeiro prmio em Ascot representava boa quantia em dinheiro, alm
da taa.
- No tenho condies de esperar - replicou o duque, indo para a prxima
baia.
Cassandra pediu para ver o catlogo com os preos. Tencionava mandar uma
cpia ao pai.
- Decidi pr meus cavalos  venda na ltima semana. Foram acrescentados
no fim da lista - observou o duque.
- Isso significa que esse nomes adicionais no chegaram ao conhecimento
de muitas aldeias.
O duque sacudiu os ombros.
- Talvez no. Mas garanto que terei compradores. O haras de meu pai  bem
conhecido.
- Sim, claro - confirmou Cassandra.
Mas ela imaginava que seu pai, em Yorkshire, no saberia da venda dos
animais do duque. Resolveu mandar-lhe um telegrama.
Mas... e se sir James resolvesse vir a Londres?
De qualquer maneira, ao sair, Cassandra carregou um catlogo consigo.
- Voc vai jantar comigo esta noite - declarou o duque. Era uma ordem,
no um pedido.
- Tem certeza de que no tem companhia melhor? - indagou Cassandra.
- Est procurando elogios, Sandra? Sabe que gosto de sua companhia. No
faa esse joguinho comigo. No h tempo para isso.
Havia ansiedade no modo como o duque falara, mas Cassandra no adivinhara
a razo. S notou que era carregada por uma onda que se movia rpido
demais para que ela pudesse pensar com clareza e coerncia.
Quase se esquecia de que representava como num teatro, que o
relacionamento entre eles no tinha base, no era real. Ela
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no passava de uma atriz bonitinha, atraente, e o duque, um homem prestes
a se casar com uma herdeira rica.
Embarcara numa viagem cujo fim no conseguia vislumbrar. Seu plano de
encontrar o duque, de descobrir seus interesses e acima de tudo, de
saber quem ele amava ia bem. Contudo, tantas dificuldades que ela no
antecipara surgiram... Criara uma histria fcil de ser posta em
operao, mas, agora, tinha medo, incertezas...
Sentia certo desconforto, um pavor crescente que se escondia sob a
excitao e o prazer de estar com o duque, de saber que o amava mais 
medida que o tempo passava.
Cassandra estava pronta quando o duque foi a Bury Street a fim de apanh-
la.
No queria que ele a visse de novo na horrvel sala do apartamento. Por
isso, desceu e foi esper-lo no hall de entrada do prdio.
- Cheguei atrasado? - perguntou ele, beijando-lhe a mo.
- No, mas achei mais fcil descer que obrigar Vossa Graa a subir.
-  muito amvel, Sandra.
Ela usava um vestido branco, enfeitado de lantejoulas e flores
artificiais. Era lindo, mas tambm teatral.
Hannah colocara duas rosas em seu chapu. A nica jia que Cassandra ps
foi um colar de prolas que pertencia  me.
O duque levou-a ao Rule's, um lugar muito mais discreto que o Romano's.
No restaurante pequeno, ntimo, os poucos clientes eram como eles, casais
interessados um no outro, e falando baixinho.
- Agora o movimento  pequeno - comentou o duque. Mas, na sada dos
teatros, muitas pessoas viro para c.
- Prefiro o restaurante assim vazio.
- Imaginei - concordou o duque.
Eles conversaram muito durante o jantar. Cassandra se emocionava a cada
palavra dele e a cada contato de mos.
- Nunca ouvi o nome Sandra antes - disse ele a um dado momento. - 
diminutivo de Alexandra?
Cassandra fugiu da resposta fazendo outra pergunta:
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- Vossa Graa honra seu prprio nome?
- Que sabe sobre ele, Sandra?
- Sei que Marcus Terentius Varro foi um sbio romano. E, creveu mais de
seiscentas obras sobre enorme variedade de a suntos.
- Onde encontrou esses dados? No museu britnico?
- No, no. Li acerca dele h muito tempo. Vossa Graa sabe muito bem que
no tive tempo de visitar museus em Londres desde que aqui cheguei. Mas
acho seu nome fascinante.
- E o dono do nome?
Ele a fitava e Cassandra corou, desviando o olhar.
- Em que est pensando, Sandra?
- Em Vossa Graa.
- E a que concluso chegou? Conte-me! - insistiu o duque.
- Que Vossa Graa encontra-se numa encruzilhada no caminho de sua vida.
Tomou uma deciso, e agora no tem certeza se foi acertada.
O duque encarou-a, atnito.
- Como sabe disso?
-  verdade? - perguntou Cassandra.
- Sim,  verdade. Mas o que voc desconhece  o motivo de minha
preocupao.
- No quer me revelar?
-  fcil. O motivo  voc.
Os dois se olharam e, por minutos, ficaram enfeitiados. Nesse instante,
algum chegou perto deles e disse:
- Que surpresa agradvel encontr-los aqui! Boa noite, Sandra! -
cumprimentou-a lord Carwen, estendendo-lhe a mo.
Ele beijou-lhe os dedos e colocou a outra mo no ombro do duque, para que
ficasse sentado.
- No se levante - disse ele. - Deixei um recado a voc no clube.
- Algum problema? - indagou o duque, com ar preocupado.
- No, apenas um convite para passar um fim de semana em minha casa de
campo. Lily tambm ir, e vrios amigos comuns.
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- Muito obrigado, porm...
- Naturalmente o convite se estende  linda Sandra Standish. Ele sorriu
para Cassandra, de um modo que ela classificou
de atrevido.
- Teria escrito diretamente a voc, Sandra - prosseguiu ele, dirigindo-se
a Cassandra -, mas no sabia seu endereo. Alis, esqueceu-se de se
despedir de mim ontem  noite.
- Desculpe - sussurrou Cassandra, encabulada.
- Senti sua falta. Para minorar meu sofrimento, espero que v com Varro e
passe o fim de semana conosco.
Cassandra pensou em recusar, mas logo imaginou como seria maravilhoso
viajar pelo campo com o duque. Ficariam juntos por muito mais horas do
que se encontrando apenas durante as refeies.
Vendo-a hesitante, lorde Carwen insistiu com o duque:
- Voc tem de ir, Varro. No aceito um "no" como resposta! E leve
Sandra.
- Tudo bem, se Sandra concordar.
- No acredito que Sandra tenha corao to duro a ponto de me deixar
desesperado por recusar minha hospitalidade insistiu lorde Carwen. - E
agora, preciso voltar  companhia de meus amigos. Espero ambos amanh 
hora do ch. - E acrescentou, dirigindo-se a Cassandra: - Varro lhe
explicar que roupas so necessrias. Prometo-lhes um bom divertimento!
- Obrigada - murmurou Cassandra, achando que lorde Carwen acabava de
colocar uma ndoa escura no agradvel jantar que tivera com o duque.
Embora tendo permanecido com ele por ainda mais de uma hora no
restaurante, estava consciente o tempo todo da presena de lorde Carwen.
O duque pediu a conta.
- Est com vontade de passar esse fim de semana com lorde Carwen? -
perguntou ele a Cassandra, enquanto esperava a volta do garom.
- No. Mas gostaria de passar o fim de semana com voc.
Ela nem se deu conta de que tratara o duque de "voc".
- Ento, vamos - concordou ele.
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- Ser interessante ver a sra. Langtry mais uma vez. O sr Gebhard ir
tambm?
- Sem dvida. Lily jamais vai a parte alguma sem ele. Cassandra achava
quase impossvel uma mulher casada ir com
um homem que no seu marido passar um fim de semana fora. Depois, disse a
si mesma que, com certeza, havia regras especiais para atrizes.
O duque e Cassandra retiraram-se do restaurante. Muitas pessoas haviam
chegado depois deles e o local ficou lotado.
Na chapelaria, uma jovem mulher sentiu-se mal assim que Cassandra l
entrou para apanhar seu chapu.
Ela correu a fim de ajudar a pobre moa, reconhecendo-a como uma das
convidadas de lorde Carwen na festa da vspera. com o auxlio de uma
empregada, Cassandra deitou-a num sof.
- vou buscar um pouco de conhaque - disse a empregada.
Cassandra esfregou as mos frias da moa, que logo abriu os olhos. Era
uma mulher linda, de cabelos louros e olhos acinzentados.
- Tudo est bem agora - consolou-a Cassandra. - Foi um pequeno desmaio.
Descanse um pouco.
- Que bobagem a minha ter sado hoje - comentou a moa. - Senti-me mal a
tarde inteira.
- Talvez seja melhor ir para casa agora - sugeriu Cassandra. - H algum
para lev-la?
- No, ningum. Lorde Carwen convidou-me para jantar aqui hoje e mandou
uma carruagem buscar-me  porta do teatro.
- Quer enviar um recado para ele?
- No! No! Prefiro no preocup-lo. Alm disso, nem o conheo bem.
- Neste caso, meu amigo e eu podemos acompanh-la. Mora longe?
- Muito perto. Em Drury Lane.
- Essa  a melhor soluo - admitiu Cassandra. - Tem certeza de que no
quer dizer nada a lorde Carwen?
- Tenho! S desejo ir para a cama. No devia ter vindo. Tive dificuldade
at em representar minha parte no teatro.
- Deve ter sido um sacrifcio, sentindo-se assim to mal
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Ainda plida, trmula, a moa levantou-se.
- No vai ser incmodo levar-me a casa? - perguntou a jovem. - Posso
muito bem ir sozinha.
- Ainda no est boa - insistiu Cassandra. - Acho que estou... bem.
- Como  seu nome? - perguntou Cassandra.
- Nancy. Nancy Wood.
Colocando um brao em volta da cintura da moa, Cassandra levou-a para
fora, onde o duque a esperava. Ele surpreendeu-se ao v-las aparecer.
- Esta  Nancy Wood - explicou Cassandra. - Trabalha no teatro de
variedades. Sentiu-se mal e me ofereci para lev-la
a casa.
- Naturalmente - concordou o duque.
Nancy sentou-se num canto da carruagem e fechou os olhos. Deu seu
endereo com voz to fraca que Cassandra achou que ela iria desmaiar.
A casa de Nancy no ficava longe. As ruas em Drury Lane eram estreitas e
imundas. A casa de cmodos, na porta da qual pararam, tinha aspecto
miservel.
- Tem a chave? - perguntou o duque a Nancy. com dificuldade, Nancy
encontrou-a dentro da bolsa.
O duque abriu a porta e, com o auxlio de Cassandra, a pobre moa desceu
da carruagem.
-  melhor que eu a leve at a cama - props Cassandra.
- Voc pode subir sozinha com ela? - indagou o duque.
- Claro.
Cassandra conduziu a jovem ao segundo andar. O local cheirava a gs e
comida. O aspecto era de muita pobreza. O cho do corredor parecia no
ter sido lavado h anos e o linleo estava cheio de buracos.
Nancy abriu a porta do quarto. Acendeu uma vela. A cama no tinha sido
feita e tudo se apresentava em completa desordem.
Havia roupas ntimas, meias, anguas, vestidos jogados pelo cho, sobre
as cadeiras e sobre a cama.
A penteadeira tinha todo o tipo de artigos de toalete: escovas de cabelo
no muito limpas, pentes, cremes, flores artificiais, tudo numa confuso
inacreditvel.
- Desculpe a desordem - disse Nancy com voz fraca.
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- No se preocupe. V para a cama. Estar melhor ama nh e, se tal no
acontecer, chame um mdico.
- No h nada... que um mdico... possa fazer para me ajudar - gaguejou
Nancy.
- Por qu? Que h com voc? - perguntou Cassandra, as sustada.
- Estou grvida - replicou Nancy, rompendo num pranto convulsivo.
74

CAPTULO VI

Cassandra voltou ao encontro do duque, e encontrou-o com ar preocupado.
- Voc demorou muito - disse ele.
- Nancy est... doente. E eu no sabia... como agir.
- Que h com ela, Sandra?
Cassandra no respondeu logo. Aps segundos, murmurou:
- No posso... contar... a voc.
- Suponho que ela esteja grvida!  isso? De olhos arregalados, Cassandra
perguntou:
- Como... conseguiu adivinhar?
- No  difcil, mas que poder voc fazer, Sandra?
- Ela est to... desesperada...
- Deixou-lhe algum dinheiro?
- Nem pensei nisso - confessou Cassandra.
- Espere aqui!
Enquanto ele subia as escadas, Cassandra gritava:
- No! No pode ir l! Nancy est na cama! O duque no lhe deu ouvidos.
Ela chocava-se ante a ideia de ele entrar naquele quarto imundo, mas
ficou muito mais chocada pelo fato de ele saber que Nancy estava grvida.
Mulher alguma de seu mundo social diria coisa to ntima a um homem. E
nem usaria a palavra "grvida". A expresso comum era "estado
interessante" ou "esperando um beb".
Discutir sobre esse assunto era possvel apenas com a me ou o marido.
A chegada de um beb ao mundo consistia num evento envolvido em mistrio
quanto  maneira como fora concebido.
O fato de Nancy ter revelado sua situao teve, para Cassandra, quase o
efeito de uma bomba.
Ela nem soube o que dizer  moa. Enquanto Nancy chorava, limitou-se a
ajud-la a trocar de roupa e a sussurrar palavras
75
de consolo.
Achou incrvel o duque ter adivinhado to depressa o que havia de errado
e, quando ele desceu, minutos depois, Cassandra no ousava encar-lo.
Ele pegou Cassandra pelo brao e ajudou-a a subir na car ruagem. Deu o
endereo de Cassandra ao cocheiro e seguiram
- No pensei em lhe dar dinheiro - Cassandra foi a primeira a falar. -
Foi tolice minha, mas, de qualquer maneira, no tinha nada comigo. vou
tentar ajud-la. Ela no pode voltar para a casa da famlia.
- Por que no?
- Enquanto eu a punha na cama, contou-me que fugira de casa para
trabalhar no palco. O pai, ministro protestante,  vigrio de uma
parquia em Wiltshire. Nancy no manteve contato com ele desde sua
chegada a Londres.
- E ela no tem outro lugar para ir? - indagou o duque.
- No sei, mas deve haver algum lugar...
- Voc no pode se envolver com essa moa, Sandra. Nunca a viu antes, e
foi s por coincidncia que se encontrou com ela na chapelaria.
- Acho que est sendo duro demais, talvez cruel - queixouse Cassandra. -
Nancy est em dificuldade, e algum precisa auxili-la.
- J deixei dinheiro e posso levar mais amanh.
-  muita bondade sua. Quando no puder mais trabalhar, precisar mudar-
se de casa. Duvido que o proprietrio a deixe morar naquele quartinho com
uma criana. Penso que o pai do beb... devia ajud-la. Mas ela disse...
qualquer coisa que no entendi.
- Que foi que ela disse, Sandra?
- Que no sabe... quem  o pai! Como  possvel?
O duque, de incio, no respondeu. Depois, olhando para Cassandra,
perguntou:
- Que idade tem voc?
Cassandra imaginou que ele quisesse apenas mudar de assunto e no
respondeu.
Confessar que tinha s vinte anos seria ridculo. O duque acharia difcil
ela j ter representado tanto no teatro com essa idade. Tambm no queria
mentir ainda mais.
Resolveu responder somente:
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- Sempre soube que era muito rude... perguntar a idade a uma mulher -
Cassandra redarguiu, sorrindo.
- Aceite minhas desculpas.
Continuaram a viagem em silncio at Bury Street. Na porta do prdio, o
duque tentou consol-la:
- No se preocupe com Nancy. Virei aqui amanh ao meiodia. Se voc
quiser, poderemos ir juntos visit-la antes de irmos para o campo.
- Gostaria muito de v-la.
- Voc est bem, Sandra? Detesto deix-la sozinha neste apartamento.
- No estou sozinha - replicou Cassandra, sem refletir no que dizia.
O duque mudou de expresso.
No dia seguinte, ela estava pronta ao meio-dia,  espera do duque.
Teve de explicar a lady Fladbury que passaria um fim de semana com
amigos.
- Quem so eles, Cassandra?
- Fui convidada para ir  casa de campo de lorde Carwen, que fica s a
trs quartos de hora de Londres.
- Os Carwen? - exclamou lady Fladbury. - Pensei que lady Carwen estivesse
na Frana. Ela prefere morar em Paris, pois  meio francesa. Nunca me
encontrei com Sua Senhoria, mas sei que  uma mulher linda, e lorde
Carwen tem fama de ser um conquistador.
- Ele  bastante velho! - comentou Cassandra, achando Que essa observao
o tornava mais respeitvel aos olhos da tia.
- S tem quarenta anos! Claro,  velho para voc. Mas garanto que haver
muitos jovens na reunio. Divirta-se, minha Querida!
- vou me divertir, tia. A situao foi bem mais difcil com Hannah.
- Se vai a uma casa decente, Cassandra, por que no posso ir junto? -
questionou a empregada, furiosa.
 - Sabe, Hannah,  uma festa grande, e no h quartos suficientes para
acompanhantes.
- No sei o que sua me diria, no sei! Sair sozinha desse Jeito! E, se
for mesmo uma casa respeitvel, por que Sua Senhoria
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no vem busc-la aqui?
- Por favor, Hannah, ajude-me - suplicou-lhe Cassandra
- Disse-lhe que iria representar como num teatro, e afirmo lhe que no h
nada de errado no lugar aonde vou. Tia Elea nor conhece os Carwen e, se
houvesse algo inconveniente nesta visita, ela no me deixaria ir.
- Bem, no gosto nada disso. Enquanto fico de olho en voc, sei que coisa
alguma de mau acontece, porm, num luga estranho, sem mim... cus, s
Deus sabe o que pode suceder
- O qu, por exemplo? - Cassandra perguntou. - E ser apenas por duas
noites. V ao apartamento segunda-feira de manh e l espere por mim.
Resmungando, Hannah comeou a preparar as malas de sua patroa. Depois, as
duas levaram tudo para Bury Street, e l acrescentaram nas malas alguns
toaletes vistosos, de corista, sob o protestos de Hannah.
A criada insistiu para que Cassandra usasse uma capa de via gem para no
apanhar um resfriado.
Cansada de discutir, aceitou a sugesto e ps um agasalho azul, caro e
luxuoso, que o pai lhe dera de presente no ultimo inverno.
Ficou com aspecto muito jovem, e o azul-safira enfatizava seus cabelos
ruivos.
Lembrou-se de que todo mundo achava que ela possua apa rncia de artista
por causa da cor dos cabelos.
Em Bury Street, antes de sair, Cassandra escreveu uma car ta, imitando
mais uma vez a caligrafia do pai. Enviou-a para os escritrios de
Tattersall, pedindo que fossem reservados to dos os cavalos do duque para
sir James.
Ao assinar a carta, capacitou-se de que punha um limite em sua estada em
Londres. Precisava estar em casa antes que a conta chegasse a Yorkshire.
No tinha dvida, contudo, de que seu pai teria enorme pra zer em
adquirir os cavalos do duque, mas precisava lhe dar uma explicao, e
isso s podia ser feito pessoalmente. Tera-feira, sem falta, ela tinha
de estar em Yorkshire.
Mais uma vez teve a impresso de que uma onda violenta a carregava. Mais
uma vez achava que algo assustador estava para acontecer!
Apenas tinha certeza de uma coisa: amava o duque!
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Cada hora que passava longe dele parecia-lhe uma eternidade. Quando junto
dele, o tempo voava.
Varro dissera que a areia corria depressa demais na ampulheta, e
Cassandra concordava.
Na hora marcada, desceu e esperou pelo duuque no hall de entrada do
edifcio.
Percebeu que ele admirava seu toalete, e Agradeceu mentalmente a Hannah.
- Vejo que usa uma roupa quente -  disse ele. -  bom. O dia est lindo
e achei mais interessante viajar num faetonte aberto. Se chover, abaixarei
a capota.
- vou adorar essa viagem - comentou Cassandra.
Construdo para desenvolver grande velocidade, o faetonte tinha lugar
 apenas para duas pessoas. O duque ajudou-a a entrar no veculo, e logo
 Cassandra disse:
- No se esquea de que vamos ver Nancy antes.
- J estive l - replicou o duque.
- J? E como vai ela?
O duque entregou um envelope a Cassandra, que exclamou:
- Que houve? Que disse ela?
- No se encontrava em casa.
No envelope estava escrito apenas "Sandra",
Cassandra abriu-o. L havia um bilhete, a lapis Ela leu-o
em voz alta:
"Voc foi muito boa, mas no h nada que possa fazer por mim. Prefiro
entregar-me ao julgamento de Deus a ao de meu pai. Deus me perdoar mais
facilmente.
Nancy".
Apavorada, Cassandra perguntou ao duque:
- Que significa isso? Para onde foi ela?
- Estive no quarto de Nancy. A porta estava aberta mas ela havia
desaparecido. Na penteadeira achei a carta e o  dinheiro que lhe dei ontem.
- Mas... para onde foi... Nancy?
- A resposta  clara, Sandra. Resolveu Seu dilema da maneira mais
fcil. No tinha outra alternativa.
- Acha que ela... suicidou-se?
- Imagino que ser mais um dos corpos no identificados que se encontram
no rio todos os dias. Muitos deles pertencem
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a mulheres na mesma condio de Nancy Wood.
- Precisamos fazer alguma coisa...  necessrio termos certeza...
- No envolveria voc com a polcia, Sandra. Afinal de contas, a nica
prova que temos  o bilhete que lhe escreveu. No sabemos como encontrar
o pai dela cujo nome talvez nem seja "Wood. "
-  verdade - concordou Cassandra.
- Seria um escndalo para voc e para mim o envolvimento nesta tragdia.
  tarde demais para salv-la.
- Mas a polcia ou o proprietrio da casa de cmodos no far
interrogatrios? - balbuciou Cassandra.
- Duvido que se ocupem do caso. A polcia no conseguir descobrir quem 
ela. O proprietrio, ao ver que Nancy no voltou, pegar o dinheiro que
eu l deixei e os pertences dela.
Cassandra estava chocada. No ignorava que, se a polcia descobrisse que
ela e o duque tinham sido as ltimas pessoas a verem Nancy, o plano que
arquitetara seria desmascarado na certa. Seu pai ficaria furioso, e os
jornais publicariam notcias desastrosas.
Mas pensar em Nancy deixava-a arrasada.
-  horrvel!  cruel! Como pde ela fazer isso? - soluava Cassandra. -
Contou-me que o pai... nunca a perdoaria.  muito pouco cristo... punir
uma jovem assim severamente.
- Tente esquecer-se do que aconteceu, Sandra. Foi uma experincia triste
para voc, eu sei.
- No posso esquecer-me! E concordo que, do ponto de vista de Nancy, no
havia melhor soluo.
Cassandra achou que o duque estava certo. Continuar pensando em Nancy,
tentar imaginar um meio de ter evitado a tragdia, reprovar-se por no
ter dado  moa mais auxlio, tudo isso s a faria mais desesperada e
destruiria as perspectivas das horas agradveis junto ao duque.
Entendia muito bem que ele considerava o assunto imprprio para o
momento; no obstante, desejava fazer mais perguntas. Queria compreender,
por exemplo, como a filha de um vigrio, educada numa casa decente, podia
ter se encontrado em tal circunstncia, e por que no haveria um homem
que se casasse com ela, a fim de legitimar a criana.
Tantas perguntas ela gostaria de fazer ao duque! Mas, ao mesmo
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tempo, no queria incomod-lo, forando-o a entrar num assunto pouco
interessante.
No parava de pensar na imunda casa de cmodos, no horrendo quartinho de
Nancy...
com esforo, decidiu esquecer-se do drama. Tentou ficar alegre e ser uma
companhia agradvel. Procurou falar sobre outros temas.
Como se ele adivinhasse tanto esforo, comeou a conversar acerca de
cavalos.
Contou a Cassandra do pedigree dos animais que os conduziam naquele
instante e descreveu algumas das compras que fizera com o pai.
O velho duque visitara todo o tipo de feira de animais, sempre tentando
adquirir as melhores montarias.
- Alguns homens colecionam cavalos, outros quadros e objetos de arte -
disse o duque sorrindo.
- O que voc gostaria de colecionar?
- No tive oportunidade de fazer nada disso. Mas, se tivesse uma chance,
colecionaria cavalos e quadros.
- Aposto que tem lindas telas em Alchester Park.
- A coleo de minha famlia  famosa - observou o duque. - Todos os meus
antepassados foram retratados por artistas de renome. Os quadros
continuam l. Primeiro os condes e condessas; mais tarde, quando o ducado
foi criado, os duques e duquesas.
- Seu retrato j foi adicionado  galeria? - perguntou Cassandra.
- No. Em nossa tradio espera-se que o possuidor do ttulo morra.
O duque assumiu um ar tristonho, e ela imaginou que estivesse pensando em
seu casamento arranjado, do qual no poderia escapar.
Quis contar-lhe a verdade, mas teve medo.
E se ele se ressentisse por ter sido enganado?
Em seus sonhos de adolescente, havia apenas a imagem de um homem. Agora,
l estava ele em carne e osso, um homem que lhe beijara a mo e tentara
beijar-lhe os lbios; um homem que confessava que apenas artistas eram
livres para agir como quisessem, para fingir.
"Fiz uma confuso de tudo!", admitiu ela.
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E no sabia como sair da confuso que criara! Passeavam pelo campo j
havia algum tempo quando Cassandra perguntou para onde iam.
- Achei que a casa de lorde Carwen ficava muito perto de Londres -
declarou ela. - J devamos ter chegado, no?
- Quero lev-la antes para almoar num lugar bem interessante - explicou
o duque. - Fica perto do rio e, nesta poca do ano, no deve estar muito
cheio.
Ele acertara; havia pouca gente na encantadora hospedaria, Eles sentaram-
se a uma mesa perto da janela, de onde se viam as guas prateadas do
Tamisa.
Era uma casa velha, com enorme lareira que aquecia a sala toda.
Cassandra esqueceu-se da tragdia de Nancy Wood e conversou alegremente
com seu companheiro.
- Como pode ser to bonita e tambm inteligente? perguntou-lhe o duque.
- Voc no fala isso como se fosse um elogio.
- E no ! Muitos homens detestam mulheres inteligentes. Elas os assustam
- comentou o duque.
- E voc? Se assusta?
- No. Acho-a interessante, Sandra. Mas o que me deixa perplexo  que,
sendo to inteligente, tenha escolhido a profisso de corista.
- No h muita escolha para uma mulher.
- Concordo. Quem gostaria de ver uma mulher no Parlamento, uma mulher
advogada, na bolsa de valores, ou, pior ainda, na posio de juiz?
- Por que acha isso assim condenvel? - indagou Cassandra.
- Por que a mente das mulheres, em geral, no tem lgica.  Foi uma
provocao que Cassandra no podia deixar passar
despercebida. Mais uma vez discutiu at que o duque retirasse o que
dissera.
- Confesso que julguei mal as mulheres. Se voc fosse minha filha, eu a
mandaria estudar em Oxford.
Cassandra riu e ele acrescentou:
- E, acredite-me, homem algum resistiria se a visse rir dessa maneira,
com esses lbios de curvas graciosas. Ningum lhe recusaria nada, e voc
poderia seguir qualquer carreira.
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Os dois permaneceram sentados e conversaram por muito tempo depois do
almoo.
- Gostaria de ficar aqui em vez de ir quela casa horrvel
de lorde Carwen! - exclamou o duque de repente.
- Vai ser desagradvel a reunio?
- H muita gente por l, Sandra, e quero voc s para mim. Quero falar
com voc, ouvi-la, estar com voc. Qualquer outra pessoa nos
interromperia, e sei que vou me aborrecer com isso.
- Eu tambm... preferiria... ficar s com voc - murmurou Cassandra.
-  mesmo? Percebe o que aconteceu conosco, Sandra?
Acho que me apaixonei por voc no minuto em que fomos apresentados. No
foi apenas por ach-la linda, havia algo mais.
Sentiu isso tambm?
Ela no conseguia responder. Seu corao quase saltava do
peito. O duque levantou-se e disse abruptamente:
- No quero falar sobre esse assunto. Vamos! Podemos dar
mais uma volta pela redondeza a fim de chegarmos na hora exata
na residncia de Sua Senhoria.
Cassandra teve dificuldade em se mover. Custou para encarar a realidade.
O duque confessara que a amava, mas no tomara nenhuma
deciso para o futuro!
Seria o dinheiro para ele mais importante que o amor?
Cassandra o amava tanto que todo seu corpo vibrava. No
podia aceitar que ele a pusesse de lado por razes mercenrias.
" Sofria uma agonia insuportvel.
Ele a amava! Apaixonara-se por ela, mas desistia desse amor
por causa de uma herdeira rica que nunca vira, mas que lhe traria
os milhes de que necessitava.
Achou que no podia continuar com aquela farsa por muito
tempo.
"No aguento mais", disse a si mesma.
Se considerara seu plano difcil no passado, achava-o ainda
mais complicado agora...
O passeio pelos arredores foi maravilhoso. Soprava uma brisa
suave e a temperatura era agradvel. Por toda parte havia flores,
rododendros, papoulas, exibindo seu colorido por entre os gramados muito
verdes.
- Comparo-a  primavera, Sandra! - exclamou o duque,
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de sbito. - Por um ato de magia voc consegue dispersar a escurido de
meu inverno!
Cassandra quis aproximar-se mais dele, encostar a cabea em seu ombro,
mas no teve coragem.
"Que importa o que vai acontecer amanh, desde que possamos usufruir do
prazer do dia de hoje?", pensou ela afinal.
O duque achava-se bem perto e a nica coisa que interessava a ela era
estarem juntos.
Viajaram por quilmetros em vias tortuosas, picadas abertas na mata, e
chegaram ao topo de uma colina de onde podiam avistar o vale inteiro.
Falaram sobre assuntos leves, mas Cassandra sabia que os dois estavam o
tempo todo conscientes do amor que os unia.
Alguma coisa mgica acontecera! Alguma coisa que os tornava mais unidos a
cada segundo, at que ela sentisse, embora o duque no a tocasse, estar
nos braos dele sendo beijada com paixo.
O sol comeou a se pr no horizonte, o cu se tingia das mais variadas
cores, tpicas do poente. Uma enorme manso surgiu de repente.
-  aquela a casa? - indagou Cassandra.
- .
A manso era o smbolo da imponncia, pomposidade e riqueza, bem ao
estilo de lorde Carwen.
Os gramados tinham canteiros de flores, os portes, ponteiras douradas e
as cercas trabalhadas revelavam o carter pretensioso do proprietrio.
Ao entrarem no enorme hall, criados de libr os receberam.
- Sua Senhoria vive em grande estilo - comentou Cassandra com o duque,
enquanto o mordomo os conduzia por enormes corredores com telas valiosas.
Chegaram ao salo e l se achava lorde Carwen, que foi imediatamente ao
encontro dos recm-chegados. Beijou a mo de Cassandra e disse, fitando-a
nos olhos:
- Recebo-a em minha casa com grande prazer, menina linda. - E depois,
dirigindo-se ao duque: - Varro, meu amigo, sabe que  sempre bem-vindo.
Em seguida, apresentou Cassandra aos convidados. Todos tomaram ch e
conversaram por algumas horas. Os hspedes eram na maioria homens, quase
todos da idade do dono
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da casa. Usavam uma linguagem crua, considerada insultante por
Cassandra.
No era o modo como seu pai falaria na presena de uma dama. Todavia,
reconheceu que, para lorde Carwen, ela no era uma dama, nem as demais
mulheres presentes.
Havia no grupo feminino uma senhora atraente, de aproximadamente trinta e
cinco anos de idade, parecendo bem-nascida, que mantinha conversa ntima
com o conde de Wilmere, homem de meia-idade, que ria escandalosamente. O
segundo sentido de cada comentrio que fazia no chegava ao entendimento
de Cassandra.
Querendo iniciar uma conversa, Cassandra disse  tal senhora, cujo nome,
lady MacDonald, descobriu mais tarde:
- A senhora e seu marido moram nos arredores? Lady MacDonald riu muito e
exclamou:
- Ele no  meu marido! Gostaria que fosse, e o pobre Jimmy gostaria
tambm, mas, infelizmente, tem uma fera de mulher e seis filhos para
manter!
Cassandra arregalou os olhos.
Outra senhora aproximou-se de lady MacDonald e perguntou:
- Como vai seu marido, Julie?
- Pior que nunca. Acampado no norte gelado do pas.
- E ele ainda lhe recusa o divrcio?
- Sem dvida. Insiste que nunca houve um escndalo na famlia.
Cassandra ficou chocada. Mas depois disse a si mesma que no podia
esperar outra coisa do meio em que se metera.
Afinal, tanto lorde Carwen como o duque e os presentes consideravam-na
uma corista, e, assim sendo, no seria jamais convidada a uma festa de
gente de respeito.
"Vai ser interessante observar como esse pessoal se comporta", conformou-
se ela.
Mas isso no impedia que s vezes ficasse muito embaraada.
Outras pessoas, como Lily Langtry e Freddy Gebhard, eram esperadas para
mais tarde, no trmino dos teatros.
- Teremos uma casa repleta - comentou lady MacDonald.
- Porm, agora, vamos ver se podemos descansar um pouco.
Todas as mulheres subiram para os apartamentos que lhes foram reservados.
Sobre uma mesa no segundo andar havia um quadro com a distribuio dos
quartos de hspedes com os respectivos
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nomes. Era a primeira vez que Cassandra via isso.
A maior parte das sutes tinham denominaes especiais. A dela chamava-se
"o quarto azul" e possua uma saleta anexa.
Notou que no ficava muito longe da sute do dono da casa.
A sute do duque, "o quarto vermelho", situava-se no outro corredor.
Lady MacDonald criticava a localizao dos quartos designados a Rosie e
Jack:
- Jack ter de percorrer grande distncia a altas horas da noite. E sei
que ele detesta isso!
Todas riram. Cassandra pensava por que motivo sairia o tal de Jack de seu
quarto para percorrer grande distncia, uma vez acomodado em sute
confortvel e bem aquecida.
Quase tudo o que as mulheres falavam Cassandra no compreendia, e ficou
satisfeita ao retirar-se para seu prprio canto.
Tocou a sineta a fim de chamar a empregada.
- Vai descansar na cama, miss, ou prefere a chaise-longuel
- perguntou-lhe a criada.
- Na cama.
Cassandra vestiu um penhoar e recostou-se nos travesseiros, cobrindo-se
com o acolchoado de cetim.
Os lenis e fronhas tinham uma barra de renda, e um tapete de arminho
ficava aos ps da chaise-longue.
A escrivaninha continha todo o material necessrio para se escrever uma
carta: caneta, mata-borro, papel. Havia tambm um relgio cravejado de
diamantes, um calendrio com moldura de prata, uma esptula e inmeros
objetos de arte.
Flores em profuso espalhavam-se por todo o quarto.
- Gostaria de tomar banho uma hora antes do jantar - pediu ela 
empregada e fechou os olhos em seguida.
Procurou dormir, estava exausta. Mas s pensava no duque, que acabara de
lhe confessar seu amor. E sentiu que ele falara com sinceridade.
"Ns nos amamos!", admitiu a si mesma. "Contudo, no quero que ele pense
em nada mais, nem mesmo em dinheiro, alm de nosso amor! "
Lembrou-se da expresso de tristeza no rosto dele quando se referia 
venda dos cavalos.
"Preferiria que ele me contasse a verdade, que confessasse sua
necessidade de fazer um casamento por dinheiro. Nesse caso,
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 talvez eu pudesse revelar-lhe minha identidade. "
Ainda estava com o duque em seus pensamentos quando a empregada entrou
para preparar o banho.
Havia trs tipos de leo,  escolha de Cassandra, para perfumar a gua. E
as toalhas, com monograma bordado, cheiravam a lavanda.
- Que roupa vai usar, miss? - indagou a empregada. De repente, Cassandra
sentiu repulsa pelos vestidos exagerados que comprara, que a faziam igual
s outras mulheres da casa.
O modo como aquelas criaturas riam, o atrevimento do olhar, as mos que
sempre procuravam acariciar braos masculinos ou segurar lapelas de
palet eram atitudes ainda mais reveladoras do tipo a que pertenciam que
as palavras que pronunciavam ou as roupas que vestiam.
Cassandra olhou com desprazer o cintilante toalete verde que usara na
festa de lorde Carwen, o vestido amarelo, o vermelho de cetim.
Apontou  criada um de seus vestidos trazidos de Yorkshire, que Hannah
insistira em pr na mala. Era lindo, de renda branca, com saia rodada. O
decote, no exagerado, e a cintura fina completavam a elegncia do traje,
pondo em evidncia as formas perfeitas de Cassandra. Decidiu no usar
jias e arrumou os cabelos de maneira bem simples.
Porm, por mais modesto que fosse seu modo de trajar, nada poderia
ocultar seus brilhantes olhos azuis de pestanas negras, longas a ponto de
no parecerem naturais.
Ps um pouco de batom nos lbios e ligeira camada de p nas faces.
- Est linda, miss - observou a empregada.
- Obrigada.
- Nunca vi vestido to bonito como esse.
- Obrigada por me ajudar.
Cassandra desceu e ficou um pouco nervosa quando o lacaio abriu-lhe a
porta do salo.
Era uma sala linda, com enorme lustre no centro e candelabros italianos
com altas velas que iluminavam o resto do ambiente.
Lorde Carwen detestava iluminao a gs e achava que as mulheres ficavam
bem mais bonitas  luz de velas.
Ele estava sozinho junto  lareira quando Cassandra entrou;
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foi a primeira hspede a chegar.
-  cedo demais, penso - desculpou-se ela.
- Nunca  cedo demais para voc, Sandra - replicou lorde Carwen,
beijando-lhe a mo.
Cassandra detestava o jeito como ele a fitava.
- Voc  linda! - exclamou lorde Carwen. - No pode imaginar como me
sinto feliz por receb-la em minha casa. Temos muito a conversar, Sandra.
- com licena - disse ela, tentando libertar sua mo da dele.
- Tem medo de que outras pessoas nos vejam? Neste caso, Sandra, podemos
mais tarde ir a um lugar discreto a fim de conversar.
Ele soltou-lhe a mo com relutncia, e Cassandra tentou afastar-se.
- Sei - continuou lorde Carwen seguindo-a - que vamos significar muito um
para o outro.
- Est enganado, milorde.
- Nunca me engano. Constatei, no primeiro momento em que a vi, que voc
era uma pessoa que eu ia desejar conhecer bem, muito bem.
Cassandra virou o rosto e ficou olhando para as chamas da lareira.
- Tenho um presente para voc e sei que vai gostar - prosseguiu ele com
os olhos no colo nu da jovem. - Mas precisa me dizer qual  sua pedra
preferida. Na minha opinio, diamantes so perfeitos para voc.
- Nunca aceito presentes de estranhos, milorde.
- No seremos estranhos por muito tempo.
Lorde Carwen mostrava-se bastante seguro de si mesmo; estava
absolutamente convencido de que poderia dizer ou desejar o que quisesse,
e jamais seria rejeitado.
- Receio que esteja havendo um mal-entendido - explicou Cassandra. -
Estou aqui por ser amiga do duque. O senhor nos convidou e foi uma viagem
na companhia dele. Est claro?
Para grande surpresa de Cassandra, lorde Carwen riu em vez de se mostrar
ofendido.
- Adoro sua franqueza e coragem, Sandra, e voc vai constatar que tenho
condies de ser bem mais generoso que Varro, e quanto mais voc me
conhecer mais vai se capacitar de que viveremos felizes juntos.
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- Est muito enganado, milorde - repetiu Cassandra.
Nesse momento, para grande alvio dela, o duque entrou no salo.
Cassandra encheu-se de alegria e fez esforo para no correr a seu
encontro. Queria agarrar-se a ele, sabendo que encontraria proteo,
embora lorde Carwen no a tivesse ameaado fisicamente. Mesmo assim,
tinha medo.
Por uma razo inexplicvel, estava realmente apavorada.
89

CAPTULO VII

O jantar no foi to barulhento como Cassandra esperara. Por haver mais
homens que mulheres, alguns deles sentaram-se juntos e s falavam sobre
esportes. As gargalhadas do conde de Wilmere foram bem mais discretas.
Cassandra alegrou-se por no ter de ficar perto de lorde Carwen. Estava 
direita do duque e tinha um senhor de meia-idade  sua direita, que
conversava acerca da prxima caada com o homem ao lado.
O duque no falou muito e tinha o semblante carregado.
"Estar ele aborrecido por ter me encontrado sozinha com lorde Carwen? Ou
o motivo de sua preocupao foi a conversa dele com o dono da casa,
momentos antes?", pensou Cassandra.
- Preciso falar com voc, Varro - lorde Carwen dissera.
- De Veet chegou, e peo-lhe que seja amvel com ele.
- No gosto desse homem, e voc sabe - replicara o duque.
- Isso no vem ao caso - insistia lorde Carwen.
- Vem muito ao caso, pois estou absolutamente convencido de que De Veet
no  homem honesto.
- Pode ser essa sua opinio, Varro, mas investiguei o assunto e posso lhe
garantir que suas apreenses so infundadas.
- Porm ainda continuo desinteressado - reiterou o duque.
Cassandra, que ouvia a conversa toda, percebeu a expresso de ira em
lorde Carwen.
- Veja bem, Varro - comeou lorde Carwen a falar quando a porta se abriu
e outros convidados entraram. No meio deles estava De Veet, um sul-
africano corpulento, um tanto rude, que falava ingls com forte sotaque
da frica do Sul.
"Por que estaria lorde Carwen to ansioso para que houvesse
90
bom relacionamento entre o duque e De Veet"?, Cassandra se perguntava.
Chegou  concluso de que havia assunto de negcio envolvido no caso,
pois lorde Carwen recebeu De Veet efusivamente.
No jantar, foi dado a De Veet um lugar ao lado de duas moas muito
bonitas. Os lugares eram distribudos satisfazendo as preferncias de
cada convidado.
Logo aps o banquete, Lily Langtry e Freddy Gebhard chegaram. Outros
artistas acompanhavam-nos.
Lady Langtry estava lindssima, com vestido a rigor e magnficas jias.
Todos os presentes cumprimentaram-na e ela dirigiu a Cassandra um sorriso
amvel.
- Agradeo-lhe, Lily, por me haver apresentado  encantadora Sandra -
declarou lorde Carwen. - Alis, seu gosto  sempre impecvel.
- Achei que Sandra queria conhecer Varro.
- Varro encontra-se aqui tambm - observou lorde Carwen.
Assim que todos chegaram, foram  sala de jogos onde havia mesas de
roleta, bacar e bridge.
As mulheres no levavam dinheiro consigo e os homens bancavam o jogo.
Muitas moedas de ouro apareceram logo sobre as mesas de pano verde.
- Quer jogar? - perguntou o duque a Cassandra. Ela sacudiu a cabea num
gesto negativo, dizendo:
- Detesto jogos de azar.
- Ento, vamos nos sentar junto  lareira.
- Gostaria de ir para a cama cedo - confessou Cassandra. -  minha
terceira noite de vida agitada, e sinto-me exausta.
- No tem ar abatido, contudo - replicou o duque, anando-lhe um olhar de
admirao.
Linda com seu vestido branco de renda, iluminada pela luz das velas, seus
cabelos ruivos brilhavam e seus olhos estavam  ainda mais azuis.
Cassandra no cabia em si de conteptamento por estar ao lado
91
do duque e por se acharem praticamente a ss numa casa cheia de gente
desagradvel.
- Sinto-me muito feliz hoje! - exclamou o duque.
- Eu tambm. Fiz coisas que jamais ousei fazer antes - replicou
Cassandra, sem pensar na inconvenincia de sua resposta.
- O qu, por exemplo?
- Andar sozinha com um homem numa carruagem e almoar com ele numa
hospedaria.
Ela falava mais consigo prpria do que com ele. De repente, lembrou-se de
que o duque acharia estranho uma corista no ter tido a mesma experincia
muitas vezes no passado. Ele ia falar qualquer coisa quando lorde Carwen
entrou.
- Procurava vocs dois - disse ele.
- No gosto de jogar - explicou Cassandra.
-  que talvez no saiba como - opinou lorde Carwen. Deixe-me ser seu
professor.
- No, obrigada. Francamente, considero o jogo uma atividade ridcula
para passar o tempo. Prefiro conversar ou ler.
- Concordo com voc - admitiu lorde Carwen, rindo. Dirigindo-se depois ao
duque, falou: - Varro, se est mesmo decidido a no aceitar minha
sugesto quanto a De Veet, quer trocar algumas palavras com ele? De Veet
acaba de me dizer que conta com voc, portanto, se realmente mudou de
ideia,  necessrio comunicar-lhe.
- No mudei de ideia coisa nenhuma. Desde o comeo disselhe que no
queria associar-me a esse homem.
- No havia entendido, Varro. De fato, falei a De Veet que voc me
representaria na diretoria do grupo.
- Jamais farei isso - replicou o duque com deciso.
- Ento, meu caro amigo, precisa tornar sua atitude clara com De Veet.
Ele acredita que voc est interessado.  melhor preveni-lo j, antes que
as negociaes prossigam.
- Acho que posso fazer isso amanh! - insistiu o duque. Lorde Carwen
sacudiu a cabea e disse:
- Tudo bem. Se voc no est disposto a entrar no negcio, falarei com
Wilmere. Ele vem me amolando o tempo todo para encontrar uma chance de
fazer dinheiro.
- Neste caso, convm que eu converse com De Veet agora
92
mesmo - concordou o duque, levantando-se enfim. - Vem comigo, Sandra?
- Claro!
Ela seguiu Varro e, j na porta, lorde Carwen chamou-a:
- Um momento, Sandra, tenho algo a lhe mostrar.
- O que ? - perguntou ela.
-  sobre o assunto que voc abordou com o coronel Henderson no jantar em
minha casa de Londres.
- Ah! Das caadas e corridas de cavalos? Ele lhe disse?
- Disse. J providenciei vrias mudanas para a prxima temporada.
- O coronel Henderson contou-me que seus cavalos venceram duas corridas
ultimamente e que suas caadas so um sucesso - comentou Cassandra.
- Agradeo isso a Varro, que me vendeu ces de caa fabulosos. Estou
muito satisfeito com o desempenho deles.
Cassandra fitou o duque e percebeu, pelo semblante dele, que sofria por
ter se separado de seus preciosos ces. "Devia estar precisando muito de
dinheiro", admitiu ela.
- Tenho planos desenhados aqui em minha escrivaninha observou lorde
Carwen. - Deixe-me mostr-los a voc.
Cassandra no pde fazer nada alm de concordar e, relutante, o duque
saiu da sala.
Ela no queria ficar sozinha com seu anfitrio, mas considerou rude
recusar o convite.
Lorde Carwen tirou da gaveta o plano para a prxima corrida que teria
lugar em sua propriedade.
- Deixe-me explicar-lhe tudo - disse ele. - Os juizes sero colocados num
posto de onde podero ver tudo muito bem.
- Seu plano  esplndido - comentou Cassandra.
-  verdade. Contudo, no sou particularmente muito interessado em
corridas. Prefiro caadas.  Varro quem gosta desse "esporte dos reis".
- Os cavalos do pai dele eram famosos - declarou Cassandra, tentando
defender o duque.
- Gostaria de ter um cavalo de corrida, Sandra?
- No, especialmente.
Ela s imaginava o que lorde Carwen diria se soubesse que seu pai tinha
enorme quantidade de cavalos de raa, e prometer,
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to logo ela completasse vinte e um anos, dar-lhe permisso de tomar
 parte em corridas.
- Conte-me o que gostaria de ganhar, Sandra.
Ela no respondeu. Continuou observando o plano traado por lorde Carwen;
notou a altura dos obstculos, difceis, sem dvida, para seus dois novos
cavalos, Firefly e Andora.
Lorde Carwen ps diante dela um estojo de jias aberto. Dentro havia uma
pulseira de diamantes.
Cassandra declarou, friamente:
- J lhe disse, milorde, - que no aceito presentes de estranhos.
- No sou um estranho, e acho diamantes perfeitos para voc, para sua
pele alva.
- Obrigada, mas minha resposta continua sendo "no". Ela teria se
retirado da sala, porm lorde Carwen segurou-a
pelo pulso.
- Quando voc for boazinha para mim como desejo, ganhar um colar para
combinar com a pulseira.
- O senhor parece no ter ouvido minhas respostas. Como posso faz-lo
entender, milorde, que no aceitarei nada do senhor? Diamante algum, por
maior que seja, alterar minha deciso.
- Est apaixonada por Varro? - perguntou ele, num tom de caoada.
- Isso no tem nada a ver com o caso.
- Acho que sim. Quero ento inform-la, Sandra, que Varro no lhe poder
dar absolutamente nada.
Cassandra procurou livrar-se, mas ele a prendia firmemente pelo pulso.
No estava com medo, pois ouvia o rudo de vozes bem perto, e lorde
Carwen no arriscaria provocar uma cena se ela gritasse por socorro.
- Deixe-me ir! - pedia Cassandra.
- No posso acreditar que recuse meus presentes!
- O senhor no entende mesmo o que digo!
- Voc  sedutora, Sandra! Exerce uma atrao impressionante sobre mim,
como nunca senti na vida. No so apenas seus cabelos ruivos que me
fascinam, mas a curva de seus lbios, seus olhos azuis de clios longos e
negros...
- No quero ouvir nada disso. Estou aqui como sua hspede e exijo ser
tratada com cortesia.
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Lorde Carwen riu muito.
- No tenho inteno alguma de ser corts, querida. Quero fazer amor com
voc, beij-la, despertar desejo em seu corpo excitante.
- Mais uma vez se enganou. Como posso tornar as coisas claras a Vossa
Senhoria? O senhor simplesmente no me atrae.
- Mas voc me atrai, Sandra! A meu ver,  s o que interessa!
- Vejo que errei em aceitar seu convite. vou pedir a Varro que me leve
daqui amanh cedo.
- Voc me seduz ainda mais com essa relutncia! - replicou lorde Carwen,
no se dando por vencido. - Voc me enfeitia com cada palavra que sai de
sua boca, com cada movimento que faz!  adorvel, pequena Sandra! Posso
lhe dizer uma coisa? Mulheres sempre mudam de ideia, e farei voc mudar.
Eu a desejo, Sandra, e vou possu-la! Sou um lutador incansvel!
- Sinto muito, milorde. Mas, dessa vez, encontrou sua Waterloo! Como
Napoleo, ser vencido - replicou Cassandra friamente.
Conseguiu soltar seu brao e sair da sala.
Ouviu a risada dele ressoando pelo ar.
"Por que hei de ter medo desse homem?", perguntou a si mesma. "Todavia,
de qualquer maneira, quero partir amanh cedo. "
Ela encontrou o duque conversando com De Veet num canto da sala de jogo.
O olhar dele iluminou-se quando a viu.
Cassandra foi para seu lado e informou-o:
- Acho que est na hora de eu ir para a cama.
- Concordo - replicou o duque. - Teve um dia longo. E depois, virando-se
para De Veet: - com licena, De Veet, mas no h necessidade de
conversarmos mais.
- Deixe-me tentar persuadir Vossa Graa - insistia De Veet em sua voz
gutural.
-  perda de tempo!
O duque pegou Cassandra pelo brao e levou-a para o hall. No caminho,
encontraram a sra. Langtry e Freddy.
- Perdi muito dinheiro de Freddy - declarou ela ao duque. - Quanto mais
cedo me retirar, tanto melhor. Nunca fui
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boa jogadora.
- Detesto jogos de azar em residncias particulares.
- Concordo com voc - retrucou Freddy. - Estamos an bos cansados. Deve
ser muito tarde.
Cassandra subiu as escadas junto da sra. Langtry. No teve chance de
dizer boa noite ao duque. Queria contar-lhe acerca do comportamento de
lorde Carwen, mas no teve oportunidade.
Sozinha no quarto, escovou os cabelos e foi para a cama. A, lembrou-se
de que no trancara a porta. Levantou-se e constatou que no havia chave!
Ficou perplexa, pois recordava-se muito bem de ter visto uma chave, por
sinal de ouro, antes de descer para jantar. E a chave sumira! Olhou ao
redor apreensivamente e foi  saleta ao lado.
"Talvez", pensou, "a chave da outra porta sirva para a do quarto. "
Viu que no havia chave na porta da saleta tambm. Ento, disse a si
mesma:
"Devo estar enganada. As portas no tinham chave".
Havia duas poltronas pesadas no quarto. Ela colocou uma contra a porta do
quarto e outra contra a porta de comunicao para a saleta.
"Estou apreensiva demais. No acredito que algum ouse entrar em meu
quarto", pensou enfim.
com uma sensao de alvio, lembrou-se de que o quarto do duque no
ficava muito longe. Se necessrio, correria at l.
Deitou-se de novo e adormeceu de imediato.
Acordou com uma pancada discreta na porta. Sentou-se na cama. A lareira,
quase apagada, fornecia, contudo, claridade suficiente para ela perceber
que o trinco da porta girava. Uma voz murmurou:
- Sandra, deixe-me entrar!
No passava de um sussurro, mas no havia dvida de quem era.
Ela no conseguia se mover, e a poltrona era sacudida. De repente, tomou-
se de pavor.
- Sandra, quero falar com voc!
As palavras de lorde Carwen eram uma ordem, ainda que pronunciada em voz
baixa. Cassandra concluiu que precisava fugir,
fugir, fugir enquanto era tempo.
A fresta da porta aumentava progressivamente e a poltrona cedia pouco a
pouco.
Cassandra pulou da cama, apavorada. Afastou a poltrona que pusera contra
a porta da saleta e escapou para o corredor. Estava escuro, mas conseguiu
chegar  porta do "quarto vermelho", o do duque.
Sem refletir, sem bater na porta, girou o trinco e entrou...
Ao chegar ao quarto, o duque encontrara seu valete esperando por ele. O
criado estava a servio em Alchester Park desde criana.
- Vossa Graa subiu cedo hoje - observou o valete.
- Voc no precisava ter esperado por mim, Hawkins.
- Sempre esperei por Vossa Graa!  meu dever!
- Dever que voc vem cumprindo de maneira surpreendente, Hawkins, apesar
das dificuldades por que passamos.
- No me importo com as dificuldades no que se refere a mim, Vossa Graa.
S detesto ver Alchester Park em decadncia.
- Eu sei, Hawkins, mas no havia nada que eu pudesse fazer at o
presente.
- E agora, Vossa Graa?
- As coisas podem melhorar, mas ainda no tenho muita certeza.
-  o que digo aos criados, quando comeam a resmungar. Tudo vai acabar
bem! Master Varro no nos abandonar.
- Gostaria que voc tivesse razo, Hawkins.
- Bem - comentou o empregado -, vejo que h dinheiro a rodo neste lugar,
mas no  uma casa feliz.
- Por que no?
- Sempre disse que, para uma casa ser feliz,  necessrio que haja uma
senhora para cuidar dela - observou o valete. - Pelo que ouvi, lady
Carwen nunca est aqui, e lorde Carwen enche o lar com qualquer tipo de
gente. No estou querendo ser desrespeitoso, Vossa Graa, mas no gosto
desse pessoal.
- Entendo o que quer dizer, Hawkins.
- A que horas Vossa Graa deseja ser acordado amanh?
- Mais ou menos s oito horas.
97
- Muito bem. Boa noite, Vossa Graa.
- Boa noite, Hawkins.
O duque apanhou o jornal Times e sentou-se numa poltrona ao lado da
lareira. Abriu o jornal mas no leu. Deixou-o no colo e ficou observando
as chamas da lareira. Pensava no que Hawkins dissera. Sabia que falara a
verdade ao mencionar que os empregados de Alchester Park confiavam nele,
esperavam que a segurana e o conforto da casa fossem readquiridos.
Ningum ressentia-se mais que a criadagem da decadncia da manso, os
estragos, a umidade que penetrava por todas as paredes.
Hawkins tivera tambm razo ao dizer que toda casa precisava de uma
mulher para cuidar dela.
Ele suspirou, um profundo suspiro vindo do fundo da alma.
Depois, para fugir de seus pensamentos lgubres, abriu o jornal e comeou
a ler o artigo de fundo.
Estava j na metade quando a porta se abriu. Acreditou que Hawkins
voltava para apanhar alguma coisa que esquecera. Mas viu Cassandra!
Ela fechou a porta imediatamente, com mos trmulas. Usava uma camisola
fina, enfeitada de rendas. Seus cabelos, soltos, davam-lhe um aspecto de
menina.
O duque ergueu-se.
- Que houve? O que a preocupa? - perguntou.
- Lorde... Carwen... tentou entrar em meu quarto! - gaguejou ela, quase
sem flego. - Vai saber que vim para c. Esconda-me... Ele no pode me
encontrar aqui.
- Claro que no - replicou o duque com voz calma.
- Posso entrar... no guarda-roupa?
Nesse instante, ouviram-se passos no corredor. Lorde Carwen entrou no
"quarto vermelho" sem bater.
- Alo! - exclamou o duque. - Que h de errado? Lorde Carwen examinou ao
redor e disse:
- Vim verificar se voc est confortavelmente instalado, Varro. Tem tudo
de que necessita?
- Sim. Trouxe meu valete comigo.
- Ah, foi bom! Minha criadagem  s vezes descuidada com detalhes. H
cabides em seu guarda-roupa?
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Ato contnuo, ele abriu a porta do armrio e verificou o interior.
Fechou-a em seguida e olhou por trs das pesadas cortinas de damasco.
- H sempre puxadores quebrados e venezianas que no funcionam - disse
lorde Carwen  guisa de desculpa.
- Acho que tudo em sua casa  perfeito - retrucou o duque.
Lorde Carwen ficou em p ao lado da lareira e recomendou:
- Sugiro que no parta muito cedo depois de amanh. Conto com voc para o
jantar.
- Naturalmente - concordou o duque. - Sandra e eu pensvamos mesmo em
ficar at segunda-feira.
- timo! - exclamou lorde Carwen. - Por falar em Sandra, permita-me que
lhe diga francamente que no pode mantela. Mulheres do tipo de Sandra so
dispendiosas, posso lhe garantir. E eu estou em condies de lhe fornecer
uma de minhas casas que vagou recentemente, em St. John's Woods, e tambm
uma carruagem.
- J fez Sandra entender que a deseja como amante? - indagou o duque com
voz gelada.
- No momento ela reluta - confessou lorde Carwen. - Isso aumenta minha
determinao em possu-la, e vou conseguir. Mulheres so todas iguais,
Varro. Crem que o jogo do "difcil em ceder" faz subir seu preo, e, na
maioria das vezes, funciona.
- Voc parece muito seguro de si - declarou o duque, demonstrando
indiferena.
- Sinto muito cortar seu romance, Varro. - Lorde Carwen sorriu. - Mas
afirmo-lhe que seu interesse por essa borboleta est fadado a pouca
durao. Diamantes custam caro! Tenho certeza de que voc no por
obstculos em meu relacionamento com Sandra!
- Tem tanta certeza assim?
- Absoluta! - replicou lorde Carwen. - Possuo meios de tornar as coisas
bem difceis para voc, Varro. Como o vilo dos melodramas, posso
executar sua hipoteca, ou recusar a extenso do prazo do pagamento de seu
emprstimo. Mas penso no ser necessria essa dramaticidade toda entre
ns dois. Saia de meu caminho no que concerne a Sandra! Tomarei seu
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lugar com uma poltica que voc, na sua idade, ainda no adquiriu.
- Talvez a moa em questo tenha algo a dizer sobre tudo isso - sugeriu o
duque.
- Ela pode lutar um pouco. Foi bastante astuta esta noite ao recusar uma
pulseira de diamantes, mas, sem dvida, conta com o colar, os brincos e
broche combinando. Contudo, acho que vale a pena eu insistir. Quanto a
voc, Varro, diga "adeus" a ela.
- Foi bastante claro - declarou o duque friamente.
- Procure outra mulher, Varro, e encontrar em mim um amigo no futuro,
como o fui no passado. Sou um bom amigo, porm um pssimo inimigo. Boa
noite!
Lorde Carwen saiu do quarto. O duque esperou alguns segundos antes de
trancar a porta a chave.
Virou-se e viu Cassandra, plida e trmula. Escondeu o rosto no ombro
dele.
- Leve-me... daqui! Leve-me agora... J - suplicou ela.
- Como pde se esconder to bem, Sandra?
- Quando lorde Carwen abriu o guarda-roupa, eu fiquei imvel, atrs dos
pesados casacos de inverno. E ele nem me viu. Mas ouvi tudo. Nunca
imaginei que uma pessoa pudesse ser to... mesquinha... to... vil.
O duque tirou a colcha da cama e colocou-a nos ombros de Cassandra, como
um xale. Ele a fez sentar numa cadeira junto  lareira.
- Leve-me... daqui - insistia a moa.
- vou fazer isso, mas antes quero saber algumas coisas.
- Algumas coisas? - Ela arregalou os olhos, cheia de medo.
- Sim, e conte-me a verdade, Sandra.
Cassandra surpreendeu-se com a maneira como o duque a questionava, os
olhos fixos nela.
- Que... verdade? - indagou, mais assustada ainda que antes.
- Quem esperava por voc no apartamento ontem  noite?
- Minha... empregada.
-  verdade?
- . Hannah sempre me acompanha.
- J teve um amante, Sandra?
Ela no entendeu de pronto o que ele queria dizer com aquilo. Depois,
corou.
- No... claro que no. Como pde supor tal disparate?
- Quem lhe deu, ento, suas jias?
- Meu pai... exceto o colar de prolas que pertence a minha me.
O duque fitou-a demoradamente. Enfim, exclamou:
- Acredito em voc! Oh, meu amor, no imagina o que tenho pensado, o que
tenho sofrido por sua causa! vou lev-la embora daqui, mas no esta
noite. Sairemos bem cedo amanh. Trouxe consigo o traje de montaria?
- Trouxe.
- Ento, pegaremos dois cavalos de Sua Senhoria sem lhe pedir permisso e
voltaremos a Londres. Quero lhe mostrar uma coisa.
- No podemos mesmo ir agora?
-  tarde demais e provocaramos comentrios entre os criados. Porm,
prometo que partiremos amanh antes que o pessoal da casa acorde.
Ele viu um brilho nos olhos de Cassandra. Como uma criana com medo do
escuro, ela sussurrou:
- No posso voltar... ao meu quarto. Tenho receio de dormir l.
- No, claro que no vai dormir l. Espere aqui um segundo.
O duque pegou uma vela, abriu uma porta e disse:
- Venha comigo.
Sem a tocar, ele conduziu-a a um quarto de vestir onde havia um sof-
cama. Era largo e confortvel. Colocou a vela numa mesa e foi trancar a
porta que dava para o corredor.
- Agora, oua, Sandra. Assim que eu sair, feche a chave a porta de
comunicao com meu quarto, entendeu? Estar segura e ningum a
perturbar at amanh cedo. - Se eu... tiver medo... posso ir a seu
quarto?
- Naturalmente - respondeu o duque com um esboo de sorriso. - Mas vai
ficar bem aqui. Amanh de manh baterei em sua porta, s seis e meia em
ponto. Iremos aos estbulos, apanharemos os cavalos e estaremos longe
daqui antes que qualquer pessoa da casa d por nossa falta.
101
- Vamos mesmo fazer isso?
- Vamos! - prometeu ele. - Temos um longo caminho a percorrer. Assim
sendo, trate de dormir bem. No quero que desmaie antes de chegarmos ao
nosso destino.
- Isso no vai acontecer, eu juro.
- Boa noite, Sandra. Feche a porta.
Ele encarou-a. Em seguida, sem dizer mais uma palavra, saiu. Esperou
ouvir o rudo da chave girando na fechadura. com um suspiro, foi para a
cama.
102

 CAPTULO VIII

- Conseguimos! - gritou Cassandra, quando ela e o duque j se encontravam
bem distantes, tendo perdido de vista a casa de lorde Carwen.
A manh estava ensolarada e ao mesmo tempo soprava uma brisa refrescante.
Os cavalos galopavam, no havendo possibilidade de se manter uma
conversa.
Cassandra exultava por estar de novo sozinha com o duque e livre da
ameaa de lorde Carwen.
Ela achou que no poderia dormir na vspera da fuga. Contudo, sentindo-se
exausta fsica e emocionalmente, caiu em sono profundo at a manh
seguinte, quando escutou uma leve pancada na porta.
Por segundos, seus temores voltaram, mas logo vislumbrou uma rstia de
luz que penetrava pelo lado das cortinas.
- Est acordada, Sandra? - ela escutou o duque sussurrar.
Pulou da cama, enrolou-se na colcha que lhe servia de xale e foi abrir a
porta. O duque j se encontrava vestido, pronto para partir.
- So seis e meia - disse ele.
Cassandra sorriu e o duque se perguntou quantas mulheres de seu
conhecimento seriam to despreocupadas quanto  aparncia, quela hora da
manh.
Os cabelos de Cassandra estavam em desordem, os olhos sonolentos e havia
colorido suave em suas faces.
- Fui verificar seu quarto, Sandra. Pode ir para l para se vestir. No
se demore.
- Serei breve - replicou ela ofegante.
As luzes a gs do corredor estavam apagadas, mas Cassandra pde se
orientar com facilidade.
103
As cadeiras que ela pusera nas portas haviam sido removidas em parte e
tinham a moldura dourada arranhada, em consequncia, por certo, da
maneira como foram empurradas.
Cassandra lavou-se com gua fria e vestiu-se. Teve um pouco de
dificuldade em abotoar o traje de montaria.
Hannah pusera na mala o mais novo de todos, da ltima moda, que deixava a
mulher muito elegante.
Era um vestido em vez de saia e jaqueta, confortvel para ser usado no
vero. Preto, com gola e punhos brancos, tinha aspecto severo, mas
deixava Cassandra extremamente graciosa.
Ela tranou os cabelos e enrolou-os em volta da cabea. Colocou um chapu
tambm preto.
S quando voltou para perto do duque foi que refletiu sobre o que fazer
com as roupas e jias que ficaram no quarto. Porm, antes mesmo que ela
lhe perguntasse algo, ele disse:
- Foi bastante rpida. E no se preocupe com seus pertences. Meu valete
se encarregar de envi-los a Londres juntamente com minhas malas.
- Ento, podemos ir?
- Imediatamente - respondeu o duque com um sorriso.
P ante p, ela seguiu-o pelos corredores.
No usaram a escada principal, mas desceram por uma bem menor, que dava
para a ala de servio da manso. Foram ao ptio pela porta da cozinha e
em alguns minutos estavam nos estbulos.
O duque ordenou que selassem dois cavalos, com uma autoridade que
enfureceria lorde Carwen se soubesse o que se passava.
Dois animais magnficos, um garanho preto e outro preto com manchas
brancas, foram preparados.
O duque nada disse, mas Cassandra, notando a expresso da face dele,
exclamou:
- Eram seus?
- Eram, eram meus!
Os cavalarios estavam por perto, e Cassandra no pde fazer mais
perguntas. Surpreendeu-se, no obstante, pelo fato de
o duque haver vendido seus animais diretamente a lorde Carwen, em vez de
coloc-los na feira de Tattersall.
Sabia que, se seu pai os tivesse visto, e conhecedor da sua procedncia,
certamente teria comprado, qualquer que fosse o preo.
Contudo, o importante no momento era sarem daquele lugar.
Uma vez fora da propriedade de lorde Carwen, eles entraram em campo
aberto, os cavalos de rdea solta.
Galoparam por aproximadamente trs quilmetros, e, pouco a pouco, as
montarias diminuram a marcha. Cassandra encarou o duque com olhos
sorridentes.
- Minha sonolncia sumiu!
- E seus pavores tambm?
- Sim.
- Voc  tima cavaleira. Receei que no controlasse Juno, mas vejo que
minha preocupao foi infundada.
- Para onde vamos? - quis ela saber.
- Para minha casa. Quero que voc a veja.
- Gostaria muito!
Cassandra recordou-se do longo artigo sobre Alchester Park que recortara
de uma revista e colara em seu lbum.
Agora, enfim, iria ver a casa sobre a qual lera tanto, o bero do homem
que amava.
Depois de cavalgarem por mais de uma hora, o duque disse:
- V aquela estalagem mais adiante? Podemos tomar caf l. Estou faminto.
- Eu tambm - confirmou Cassandra.
A estalagem, com telhado de sap, ficava na entrada de uma aldeia
verdejante.
O hoteleiro ficou espantado ao receber hspedes to importantes quela
hora da manh. Levou-os a uma pequena sala reservada, onde havia uma
lareira acesa.
Cassandra tirou o chapu e arrumou os cabelos, pois algumas mechas
escaparam da trana.
Sentou-se depois  mesa, em frente ao duque, e o hoteleiro apareceu logo,
trazendo ovos fritos com bacon, presunto defumado, torta de porco, po
feito na hora, favos de mel e boa quantidade de manteiga.
105
- Sinto muito no termos nada mais que isso para servir a Vossas
Senhorias - desculpou-se o homem.
- Tudo est muito bem - respondeu o duque sorrindo.
Eles beberam caf em vez de cerveja ou sidra.
- A comida sempre  boa aps o exerccio - admitiu Cassandra. - No comia
um breakfast to farto desde minha ltima caada.
Mais uma vez ela se censurou por falar demais. No era provvel que uma
corista tomasse parte em caadas. Enfim... no poderia apagar o que
dissera.
Para disfarar sua imprudncia, acrescentou:
- Acho que estou com fome por ter me livrado daquela horrvel casa e de
gente ainda mais horrvel. Supus que iria gostar de conviver com pessoas
do teatro de Londres. Sei agora que no pretendo v-las nunca mais.
- Por que tanta surpresa? O que estava esperando, Sandra?
- No imaginei que mulheres bem-nascidas, como a sra. Langtry, ou a sra.
MacDonald, viajassem com homens que no eram... seus maridos.
O duque fitou-a, mas no respondeu. E Cassandra prosseguiu, como se
falasse consigo prpria:
- Meu pai me contou que cavalheiros levam artistas para jantar, ou lhes
do presentes. Por exemplo, no caso da sra. Langtry, achei que era s por
ser bonita... que ganhava diamantes... Mas, agora, penso que existe uma
outra razo...
- Por que acha que lorde Carwen lhe ofereceu uma pulseira de diamantes?
Baixando os olhos, Cassandra respondeu:
- Ouvi voc lhe perguntando ontem  noite se ele insinuara que me
tornasse sua amante. Juro que no imaginei ser essa a inteno dele.
- Qual  a profisso de seu pai, Sandra?
Cassandra no sabia o que responder. Claro que o duque jamais poderia
sonhar que seu pai fosse um gentleman como a maioria dos amigos dele.
- Papai possui algumas terras - falou ela enfim.
No era um modo muito adequado de descrever os vinte mil
acres que sir James possua.
- Quer dizer que ele  fazendeiro, Sandra? Cassandra fez um gesto
afirmativo com a cabea. Ao menos
uma vez dissera a verdade.
- Ento voc no foi ao palco por necessidade de dinheiro - insistiu o
duque. - Achava a vida do campo pouco interessante,  isso.
Ela envergonhava-se de ter agido como corista para enganar
o duque. Queria contar-lhe que mentira, mas faltou-lhe coragem.
Ele confessara seu amor na vspera, mas no repetira sua declarao. Ao
contrrio, tratara-a na noite anterior e naquele momento como um irmo, e
no como um homem apaixonado.
Ela levantou-se da mesa. Olhando-se num espelho da parede, ps o chapu:
- Acho que est na hora de prosseguirmos viagem - disse.
 - Voc falou que temos um longo caminho a percorrer. Van os diretamente
a Londres?
- Tinha outros planos, Sandra?
- No, claro que no.
O duque pagou a conta. Eles logo tomaram a estrada. No havia na
Inglaterra estao mais linda no ano que a primavera. As rvores estavam
carregadas de brotos verdes, como verdes se apresentavam os gramados.
Eles cavalgaram pelas florestas onde as violetas "espiavam" por entre a
vegetao rasteira. As prmulas tinham uma tonalidade amarela e brilhavam
 luz do sol. Anmonas frgeis udavam-se aos troncos de pinheiros
escuros ou de btulas praeadas.
Cavalgaram ao longo de riachos com as margens repletas de Salgueiros. s
vezes divisavam a distncia colinas arroxeadas ou vales verdejantes onde
gordas vacas pastavam preguiosamente.
Quando Cassandra achou que estava na hora de comerem de novo, entraram por
dois portes ladeados de animais herldicos, esculpidos na pedra. Diante
deles estendia-se Uma comprida alia com rvores centenrias de ambos os
lados. O caminho estava mal cuidado e cheio de mato. Ningum
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removera os galhos secos cados das rvores nem podara a grama.
De repente, surgiu Alchester Park em todo seu esplendor. A manso
parecera a Cassandra, nas gravuras, majestosa, porm fria. Contudo, -na
realidade, exibia um aconchego impossvel de ser traduzido em palavras.
Os tijolos vermelho-escuros da construo, que datava do reinado de
Elizabeth I, haviam descorado com o tempo e tinham um tom rosado. As
torres e chamins silhuetadas contra o cu e as vidraas brilhavam  luz
do sol. Uma larga escadaria de pedra levava  entrada principal: uma
porta de carvalho com enormes dobradias e tachas de ferro.
- Que beleza! - exclamou Cassandra. - Tudo  muito mais lindo do que eu
esperava.
Os gramados  volta da casa no eram aveludados como com certeza haviam
sido no passado e tambm necessitavam de uma poda, mas Cassandra imaginou
que, bem cuidados, voltariam a ter o aspecto de veludo.
As amendoeiras estavam em flor, como os jasmineiros que se grudavam a um
muro de tijolos vermelhos que ela suspeitava ser de uma horta.
O duque apeou, lanou um olhar demorado  manso e disse:
-  melhor levarmos os cavalos s estrebarias. Ningum sabe que chegamos.
Ele e Cassandra dirigiram-se  ala oeste da casa. As estrebarias possuam
uma grande quantidade de baias, todas vazias.
Quando o duque assobiou, um velho cavalario apareceu. Os olhos do homem
iluminaram-se  vista do patro.
- bom dia, Vossa Graa. No sabia que o senhor voltaria a casa hoje.
- Nem eu! - replicou o duque. - Mas no vou ficar. Cuide bem dos cavalos,
Ned, vamos precisar deles mais tarde.
- So Juno e Pegasus! - exclamou o velho empregado com alegria. -  bom
v-los de novo, Vossa Graa.
- No ficaro conosco - explicou o duque com voz triste. Ele ajudou
Cassandra a apear e, por segundos, segurou-a nos
braos. Mas ela sabia que o duque pensava s nos cavalos naquele
108
instante.
Para no testemunhar tanta tristeza, Cassandra tomou o calinho da casa. O
duque alcanou-a. Ambos entraram por uma porta lateral e foram
diretamente ao hall. Os painis das paredes eram de carvalho prateado.
Os raios de sol, penetrando pelos vitrais com o braso da famlia,
lanavam desenhos grotescos pelo cho, o que dava ao local uma Aparncia
misteriosa. A casa toda tinha uma atmosfera calma de felicidade.
Cassandra apreciou a escadaria de carvalho em curva, que Conduzia ao
segundo andar. Os pilares um dia haviam sido pintados de cores vivas.
Agora estavam descorados e arranhados, mas tinham um indubitvel charme.
Nada poderia ser comparado quela beleza antiga.
 - Acho que voc gostaria de descansar um pouco, Sandra. Use qualquer
quarto l de cima. vou pedir que preparem alguma coisa para ns
comermos.
Cassandra subiu. Tudo era to lindo que ela achou que precisava usar um
vestido de cetim com gola engomada, no estilo elizabetano, e longos fios
de prolas em volta do pescoo.
 O quarto era bonito tambm. Uma cama de quatro colunas, toda entalhada,
tinha um dossel do qual pendiam cortinas borfdadas. As paredes eram
empapeladas com motivos chineses, e
as sanefas das janelas tinham pssaros dourados em meio a flores
exticas.
Mas era impossvel no se notar que os tapetes estavam gastos e as
cortinas rasgadas e descoradas.
Havia tambm poucos mveis.
Cassandra tirou o chapu e lavou o rosto e as mos numa
bacia de porcelana. Lembrou-se de repente que, na pressa de
sair da casa de lorde Carwen, esquecera-se de pintar os lbios
e usar p.
"Ser que ele notou?", preocupou-se ela.
Ao se olhar no espelho, contudo, achou que tinha um ar mais jovem do que
quando usava pintura. Ouviu uma pancada na porta.
- Entre - disse, pensando tratar-se apenas de uma empregada. Mas era o
duque.
109
- Imaginei que voc quisesse tirar as botas, por isso trouxe-lhe uma
caladeira - declarou ele.
- Oh, muito obrigada! - exclamou Cassandra. - Mas no tenho outros
sapatos.
-  verdade. No pensei nisso. Acho que posso providenciarlhe um par.
Ele desapareceu. Cassandra tirou as botas e sentiu-se bem melhor. Mas no
podia ficar descala. Em poucos minutos o duque voltou com um par de
sapatos na mo.
- Garanto que vo servir para voc - disse cheio de confiana.
Cassandra ps-se a pensar a quem pertenciam aqueles sapatos. O duque no
tinha esposa e o comportamento das mulheres na noite anterior voltou-lhe
 mente. Relutava em usar sapatos de outra mulher, talvez de uma corista
que o duque trouxera a casa.
- No quero esses sapatos - protestou ela.
- Por que no?
- Porque... no quero.
O duque colocou os sapatos sobre uma cadeira e foi para perto de
Cassandra. Forou-a a encar-lo.
- Por que essa reao, Sandra? Que est pensando? - Ele deu uma
gargalhada e acrescentou: - Est com cime! Oh, meu amor, minha querida,
no tenha cime! No h motivo para isso.
Ele puxou-a para perto de si e beijou-a.
A surpresa de Cassandra foi enorme. Sentiu algo estranho e maravilhoso e
quase no conseguia respirar.
Foi um xtase, um encantamento todo especial, diferente, como se o sol
penetrasse no quarto e os envolvesse com sua luz ofuscante.
Cassandra no podia pensar em nada mais, exceto no beijo que o duque lhe
dava.
Foi um momento glorioso, to surpreendente que, quando enfim ele levantou
o rosto e encarou-a, Cassandra no podia se mover.
- Eu amo voc, querida! - sussurrou ele. - Ah, meu amor, como te quero
bem!
Cassandra vibrava ao som daquela voz e escondeu o rosto no ombro dele.
110
- Sinto-me como se a tivesse amado por toda minha vida! Olhe para mim,
Sandra!
Ela no obedeceu. Muito suavemente, o duque ergueu-lhe o queixo.
- Por que tanta vergonha?
- Sempre imaginei que ser beijada por voc seria maravilhoso! Contudo,
minha experincia foi alm da expectativa murmurou ela.
-  a primeira vez que voc  beijada, Sandra?  possvel?
- A... primeira... vez - gaguejou ela.
- Mas, por qu?
Sem esperar pela resposta, ele beijou-a novamente, dessa vez um beijo
vido, insistente, possessivo, com uma paixo irrefrevel.
Enfim soltou-a. Cassandra no tinha ideia de como estava linda: os olhos
muito abertos e brilhantes, os lbios trmulos, um suave rubor nas faces.
O duque fitou-a nos olhos por longo tempo e disse, com voz rouca:
- Pelo amor de Deus, no olhe para mim desse jeito! Tenho muito a lhe
explicar, mas antes precisamos comer alguma coisa e percorrer a casa.
Ele pegou os sapatos e ordenou:
- Calce-os! Pertenceram a minha me!
- Desculpe - sussurrou Cassandra.
Sentiu-se embaraada por haver duvidado da procedncia dos sapatos.
- No poderia pensar diferentemente, Sandra, considerando-se o tipo de
companhia a que voc se associou ontem  noite.
Cassandra calou os sapatos e desceu com o duque.
Percebeu que existia alguma barreira entre os dois e que, mais cedo ou
mais tarde, tinham de encarar o futuro.
Um mordomo idoso serviu-lhes o almoo numa enorme sala de jantar com uma
galeria e um balco envidraado numa das extremidades.
A mesa era to velha quanto a casa, e as cadeiras de carvalho entalhado
obedeciam ao estilo de Charles II.
O mordomo desculpou-se por no haver grande variedade para
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oferecer,
Depois de uma omelete recheada de tomates, ele serviu-lhes pombos com
molho de champignons. No comeram pudim  sobremesa, mas um grande queijo
redondo, especialidade local.
Eles falaram sobre assuntos rotineiros. No tinham muita fome, e
Cassandra evitava olhar para o duque, pois no podia deixar de se
emocionar  memria do beijo que ele lhe dera.
Esperava, agoniada, pelo que o duque queria lhe dizer. Temia que fosse um
"adeus", porque ele precisava casar-se com uma mulher rica.
"Como posso aguentar isso?", dizia a si mesma.
Tensa, levantou-se da mesa. O duque conduziu-a primeiro a uma volta pela
casa. Mostrou-lhe os sales com painis preciosos; a grande sala onde as
cortes senhoriais se reuniam; o arsenal cheio de bandeiras e armas
antigas, colecionadas atravs dos anos.
Havia pavilhes capturados na batalha de Worcester; outros conseguidos
por membros da famlia que lutaram com Marlborough em suas campanhas; um,
por representante do cl que batalhara ao lado de Wolfe, no Canad; e
dois mais, capturados por um duque que servira em Waterloo.
Os mveis eram escassos, como tambm os tapetes e objetos de arte.
O duque quase no falava. Limitava-se a acompanhar Cassandra pelas salas,
at chegarem  biblioteca, ainda com as paredes cobertas de livros.
- As edies de valor foram vendidas - explicou ele com amargura.. - O
O que nos restou no vale praticamente nada.
Cassandra percebeu que ele sofria e ousou perguntar:
- Pode me dizer o que houve?
- Sente-se - ordenou ele. - Isso  o que pretendo fazer.
Cassandra obedeceu e acomodou-se numa poltrona junto  lareira. O duque
ficou de p e falou:
- No sei por onde comear, mas quero que entenda que fui treinado para
acreditar que isto aqui representava uma grande herana.
- E , na verdade - concordou Cassandra.
- Foi martelado em minha cabea, desde o momento em que nasci. Ensinaram-
me que meu destino e meu dever era gastar toda a energia e entusiasmo,
minha vida inteira, na funo de duque de Alchester.
- E voc detestou a ideia.
- No exatamente, Sandra, mas ansiava por liberdade, por ser eu mesmo,
por ter permisso de satisfazer minhas prprias ambies.
Cassandra deu um suspiro. Comeava a entender muita coisa.
- De incio - prosseguiu ele -, a situao no me pareceu to
constrangedora como mais tarde. Quis trabalhar no servio diplomtico,
fazer carreira. Soube ser impossvel, pois tinha responsabilidades aqui.
Meu pai enfureceu-se ao tomar conhecimento de que eu tinha outros
interesses fora do sagrado crculo do domnio de Alchester.
- No houve escapatria, creio.
- Nenhuma. Fui tambm informado de que, nos moldes da realeza, precisava
casar-me por dinheiro, a fim de que a propriedade pudesse ser mantida e
eu pudesse levar uma vida de fartura.
- E voc concordou? - indagou Cassandra.
- O consentimento de minha parte foi assumido sem que eu desse uma
resposta. Meu pai arranjou o casamento e eu aceitei-o como algo
inevitvel que tinha de acontecer algum dia. Foi ento que viajei pelo
mundo.
- Essa viagem representou um passo importante em sua vida?
- Sim. Vi que em outros pases rapazes de minha idade ganhavam dinheiro
usando inteligncia e energia. Na Inglaterra,  considerado degradante um
cavalheiro trabalhar para sua subsistncia. Na Austrlia, tive chance de
fazer fortuna e encontrei mais oportunidades ainda na frica do Sul.
O duque fez uma pausa e Cassandra viu que ele voltava ao passado,
revivendo o entusiasmo pelo que descobrira.
- Voltei  Inglaterra com ideias que seriam a pedra fundamental para a
restaurao de nossa fortuna - declarou ele.
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- E o que se passou?
- Meu pai riu de mim. Recusou investir uma libra sequer nas minas da
Austrlia ou da frica do Sul.
- E voc no pde fazer o que tencionava.
- Fiz! Emprestei dinheiro.
- De quem? - sussurrou Cassandra.
- Precisa perguntar? De Carwen. Ele prontificou-se a me dar o que eu
quisesse.  homem muito rico.
- E confiou nele?
- Confiei. Carwen encorajou-me e era o que eu precisava naquela hora.
- Que houve depois?
- Ia contar a meu pai a verdade e pedir-lhe que reconsiderasse sua
deciso. Mas ele morreu. Vi-me dono de tudo, porm constatei que os
cofres de Alchester estavam vazios. Havia dvidas a pagar; meu pai
gastara mais do que podia em cavalos, contando com o casamento rico que
arranjara para mim.
A voz do duque expressava tanto sarcasmo que Cassandra assustou-se. E ele
continuou:
- Conclu que, se quisesse me manter, precisava de dinheiro. Hipotequei
parte da propriedade a Carwen. Vendi tudo o que no era patrimnio de
famlia. Mas, assim que o dinheiro foi investido nas minas, Carwen
comeou a mostrar as "garras".
- Que fez ele?
- Manobrava-me, como meu pai agira a vida toda. Usava meu nome e insistia
que eu o representasse em negcios desonestos. Exigiu que eu lhe pagasse
emprstimos que fizera a meu pai.
- Que voc deu a ele em pagamento?
- Cavalos, entre os quais os dois que trouxemos para c, e grande
quantidade de mveis e quadros. Ele mesmo tirou as telas das paredes para
que eu me sentisse seu devedor cada vez que olhasse os espaos vazios.
- Ele  desprezvel!
-  um espertalho em negcios, e eu fui um ingnuo ao cair nas mos
dele. Sei que em alguns anos o dinheiro que investi na Austrlia e na
frica do Sul aumentar. As informaes que recebi de ambos os pases so
fantsticas. Mas no
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posso esperar.
- Por que no?
- Porque no consigo manter minha propriedade e pagar os salrios dos
empregados. E tambm porque me recuso a continuar nas mos de Carwen.
Agora, s h um caminho a seguir.
- E qual ? - Cassandra perguntou apavorada.
- Vender a casa e pagar a hipoteca e o emprstimo que Carwen me fez.
Terei o suficiente para dar uma penso aos velhos servidores e viver
modestamente.
- No h outra alternativa?
- Claro que h. Posso me casar com a herdeira rica que meu pai encontrou
para mim. Ela quer meu ttulo, eu preciso de dinheiro. Um arranjo
sensato, no acha? Ia fazer isso! Preferia prender-me a uma mulher,
qualquer mulher, a continuar preso a Carwen. Ento, sabe o que aconteceu,
no, Sandra querida?
- O que aconteceu?
- Encontrei voc! Oh, Deus! Por que isso devia ter sucedido neste
momento?
Ele demonstrava com o olhar a angstia que sofria. Fez Cassandra
levantar-se e abraou-a.
- Eu adoro voc! Nada mais me interessa agora. Pode viver comigo na
pobreza, amor? Por alguns anos pelo menos?
- Que quer dizer?
- Voc no ter vestidos bonitos, apenas uma casinha modesta. Mas
viveremos juntos.
Ele abraou-a com fora. Cassandra tentou falar, mas no foi possvel.
- Estou pedindo voc em casamento, querida. Qual  sua resposta, amor?
Uma luz brilhou nos olhos de Cassandra, e no houve necessidade de
resposta.
O duque beijou-a longamente.
"Eu tambm amo voc...", Cassandra quis falar, mas ele a impediu, pois
colara os lbios nos dela.
Cassandra sentia ondas de felicidade percorrendo-lhe o corpo, como aves
voando para o cu.
Ela vencera! Ele a amava!
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Ele a amava o suficiente para sacrificar tudo o que significara tanto no
passado.
Ele a amava, exigindo uma retribuio apenas: seu amor.
 quase impossvel, pensava Cassandra, vir a conhecer tamanha felicidade
sem morrer em consequncia disso.
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CAPTULO IX

- Voc tem certeza? - perguntou Cassandra mais tarde, quando ela e o
duque sentaram-se no sof para conversar.
- Certeza de que desejo casar-me com voc? Tenho mais certeza disso do
que qualquer outra deciso que j tomei em minha vida.
- Mas... nos conhecemos... to pouco - insistiu ela.
- Sinto como se voc tivesse estado sempre dentro de meu corao -
reiterou o duque. -  a mulher que venho procurando, e a esposa que
almejei ter perto de mim, mas que no podia encontrar. - Havia
sinceridade na declarao dele. Eu te adoro, Sandra. Gosto de tudo em
voc. Admiro seus incrveis cabelos ruivos com reflexos dourados, seu
narizinho, seus olhos azuis! Porm, mais que tudo amo a rapidez de seu
raciocnio, a bondade de seu corao.
- Voc me envaidece - sussurrou Cassandra.
- Falo a verdade! Esqueci de mencionar outra coisa que adoro em voc.
- O qu?
- Seus lbios, Sandra!
Ele beijou-a ento e os dois calaram-se por longo tempo.
Cassandra enfim olhou o relgio e viu que estava na hora de voltarem a
Londres. Fez a pergunta que lhe queimava nos lbios:
- Que vai fazer... com a moa... com quem ia se casar?
- Confesso que me portei mal. Nosso noivado devia ter sido mencionado h
dois anos, mas ela ficou de luto pela morte do av, e no nos encontramos
por essa razo. Depois, meu pai morreu, e decidi que eu no necessitava
continuar com os arranjos que ele fizera com o pai da moa. Porm, tive
receio.
- Receio de qu?
- De que meus negcios fossem por gua abaixo e eu ficasse  merc de
Carwen. Descobri ento que agia mesmo como
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um canalha. O fato  que no tomei resoluo nenhuma.
- E agora? - perguntou Cassandra, olhando para as chamas da lareira.
- Quero me comportar decentemente. Irei a Yorkshire amanh para me
entrevistar com sir James Sherburn. Ele era o melhor amigo de meu pai e
devo-lhe uma explicao de viva voz.
- E qual ser essa explicao?
- vou lhe contar a verdade, que me apaixonei por uma pessoa adorvel que
vale mais que todo o ouro do mundo.
"Ele me ama!", Cassandra convenceu-se. "Ele me ama! E tudo com que sonhei
na vida transformou-se em realidade! "
Comeou ento a ter medo de que o duque se enfurecesse com ela quando
soubesse a verdade. No ousaria ainda confessarlhe que mentira.
E no conseguiu fazer essa confisso nem mesmo na volta a Londres, para
Alchester House.
O duque mantinha a casa fechada por no ter condies de pagar
empregadas. As estrebarias que acomodavam uma dzia de cavalos tinham
apenas dois.
Ele comunicou a Cassandra:
- Sua bagagem j deve ter chegado no apartamento em Bury Stret.
Ele acertara. Quando Cassandra l chegou, acompanhada pelo duque, as
malas estavam no hall do prdio, incluindo a valise com as jias que o
porteiro entregou-lhe em mos.
- Posso subir com voc, Sandra? - indagou o duque.
- No. Estou cansada e vou para a cama. Obrigada pelo dia maravilhoso que
passamos juntos em Alchester Park.
O duque beijou-lhe a mo, prometendo que assim que voltasse de Yorkshire,
na quarta-feira, jantariam juntos.
Ele se foi. Cassandra pediu imediatamente ao porteiro que arranjasse uma
carruagem. Entregou-lhe a chave do apartamento, dizendo:
- No voltarei mais para c. Por favor, d esta chave ao administrador da
imobiliria.
Ela partiu contente por no ter mais necessidade de retornar quele
horrvel local.
Surpreendeu-se por ter tido de dar tal passo, porm, na ocasio, no
conhecia o meio teatral como conhecia agora.
1118
Cassandra fechou os olhos para que Hannah, pensando que ela dormisse,
parasse de resmungar.
- Nunca em minha vida passei por momentos to difceis
- repetiu ela dezenas de vezes em Park Lance, depois que Cassandra
informou-a de que voltariam a Yorkshire pelo trem das sete da manh
seguinte.
- H um trem muito bom que parte s nove e meia - sugeriu Hannah.
- Sei disso, mas quero sair s sete. Se no puder se aprontar, Hannah, eu
vou sozinha e voc segue mais tarde.
Cassandra sabia ser esse o melhor meio de fazer Hannah se apressar.
No trem, absorta em seus pensamentos, Cassandra escutava com prazer o
rudo das rodas nos trilhos, radiante por saber que o duque a amava o
suficiente para desistir de sua casa ancestral a fim de se casar com ela.
Tinha conscincia da grandeza do sacrifcio que ele se propusera a fazer,
pois abandonar suas propriedades era como perder um brao ou uma perna.
Voltando para Yorkshire, Cassandra sentia-se voltando para a segurana,
para os pais que a amavam e a protegiam contra a cruel realidade do mundo
fora do lar.
Jamais sonhara haver mulheres que sofriam como Nancy Wood, ou mulheres
que desobedeciam s convenes sociais como lady MacDonald ou mesmo a
sra. Langtry.
"Aprendi muito", disse Cassandra a si mesma.
No duvidava, contudo, que o pai a censuraria por seu comportamento.
Porm, o mais importante era saber o que o duque diria ao tomar
conhecimento da verdade.
"Eu o farei entender... Ele precisa entender. "
No obstante, tinha medo. Conhecendo-o bem agora, no ignorava que ele
no se agradaria de se ver dependente do dinheiro da esposa, como se
ressentira no passado com o dinheiro do pai e de lorde Carwen.
Ele tinha uma personalidade forte, altiva, e seria humilhante saber que
sua mulher era a dona da fortuna.
Porm, pensava Cassandra, tudo seria questo de tempo. Muito em breve ele
teria sua prpria fortuna, o resultado dos investimentos feitos na
Austrlia e na frica do Sul.
O importante  que ele decidira vender Alchester Park corn
119
e toda sua histria por amor a ela. Cassandra s rezava para merecer tanto
amor e tanta dedicao.
Ela o amava muito e preferia morrer a casar-se com outro homem.
Adorava tudo nele, no apenas o aspecto atraente, mas tambm aquele ar de
autoridade, o orgulho, seu senso de humor.
Enciumada, um dia Cassandra perguntara ao duque:
- Acho que voc gastou muito dinheiro com as artistas do teatro de
variedades, no  mesmo?
- Est pensando em jias? Deixe-me dizer-lhe, Sandra, que sou bastante
convencido em confessar-lhe que nunca dei a elas presentes mais caros que
algumas flores.
Ele beijara-a ao acrescentar:
- At isso vou economizar no futuro!
Cassandra mandara um telegrama a The Towers comunicando que ela e Hannah
chegariam em Yorkshire s duas horas da tarde.
Era necessrio viajar uma hora de carruagem da estao a casa. Seria
impossvel, portanto, ao duque chegar antes das quatro e meia.
Cassandra teria de preparar seu pai para o choque do que o duque iria
dizer.
Ela, por seu lado, ainda no resolvera como proceder para contar a
verdade a Varro.
Uma carruagem esperava-as na estao e, durante todo o trajeto at The
Towers, Cassandra permaneceu silenciosa. Estava apreensiva quanto ao que
a aguardava no futuro e, embora Hannah tentasse conversar, ela respondia
com monosslabos.
O mordomo encontrava-se  porta para receb-la.
- Bem-vinda  casa, miss Cassandra!
- Meu pai est na biblioteca? - indagou Cassandra, j no hall.
- No, miss, sir James e Sua Senhoria partiram antes de seu telegrama
chegar.
- Quer dizer que meu pai no sabe que eu estava voltando?
- No, miss, sir James e Sua Senhoria foram almoar com lorde Harrogate,
e vo depois a uma recepo oferecida pelo arcebispo de York.
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- Oh,  verdade! - exclamou Cassandra. - Lembro-me agora.
- Sir James e Sua Senhoria estaro de volta mais ou menos s sete horas -
explicou o mordomo.
- Chegou algum outro telegrama?
- Sim, miss. E tambm depois que sir James saiu. Por isso abri-o,
conforme instrues dele para esses casos.
- Que dizia o telegrama? - perguntou Cassandra.
-  do duque de Alchester, miss Cassandra, e ele diz que chegar em York
pelo trem das trs e vinte e cinco. J providenciei uma carruagem para
encontr-lo na estao.
- Oua, Hudson - ordenou Cassandra. - Quando Sua Graa chegar, diga-lhe
que infelizmente meu pai no se encontra em casa para receb-lo e que eu,
por estar resfriada, esperoo na saleta do segundo andar. Fui clara?
- Muito clara, miss Cassandra.
- Leve-o at l, e no nos interrompa.
- Pois no, miss Cassandra.
O mordomo mostrou-se surpreendido s instrues recebidas, mas no fez
comentrios.
Cassandra correu ento para seu quarto, pois tinha muitos preparativos a
fazer.
O trem do duque devia ter atrasado, porque, embora Cassandra estivesse
pronta s quatro e meia em ponto, eram mais de cinco quando ela ouviu
passos no corredor.
Ainda no estava escuro, Cassandra fechara as cortinas e acendera a
lareira.
Sentou-se de costas para a janela, apagou todas as luzes, com exceo de
uma lmpada a leo que ficava numa mesa redonda, no centro da sala.
Na mesa estavam os dois lbuns que ela conservava como um tesouro por
todos aqueles anos.
Quis guardar seu segredo at o ltimo momento possvel, por isso usava
culos escuros e guardava um leque numa das mos, com o pretexto de
proteger a face do calor das chamas da lareira.
Seria difcil ao duque, vindo de uma rea iluminada da casa para um
quarto na penumbra, reconhec-la de pronto.
Considerou tambm que, estando ele provavelmente embaraado com o que
teria a dizer, no a olhasse de frente. "Vai
121
ser uma surpresa, uma maravilhosa surpresa para Varro quando perceber
quem sou eu", pensava Cassandra.
Mas essa considerao no varreu seus pavores. Ainda tinha medo de que
ele ficasse furioso.
Enquanto esperava, cada momento lhe pareceu uma eternidade. Era como se
houvesse uma pausa enorme entre cada tiquetaque do relgio. Seu corao
pulsava rapidamente, e ela umedecia de tempos a tempos os lbios secos.
"Por que hei de ter medo?
Enfim, quando comeava a pensar que algo errado acontecera, que o duque
tivesse perdido o trem e tentasse um contato com ela em Londres, a porta
se abriu.
- Sua Graa, o duque de Alchester - anunciou Hudson. Cassandra tremia da
cabea aos ps quando ele entrou na sala.
O duque colocou algo sobre a mesa e aproximou-se dela.
- Ouvi dizer que est resfriada - observou cortesmente.
- Foi uma pena ter de ficar aqui me esperando em vez de permanecer na
cama.
- No... me sinto... to mal - gaguejou Cassandra.
Procurava disfarar a voz, mas no houve na verdade necessidade de
esforo algum, pois estava to nervosa que suas palavras soaram estranhas
at para si mesma.
O duque no a fitou. Esquentou por segundos as mos no fogo. Depois
disse, com voz dura:
- Pretendia falar com seu pai, mas, como ele se encontra ausente, acho
que poderemos conversar com franqueza, um com o outro.
- Penso que sim - murmurou Cassandra.
- Sabe por que estou aqui, e sabe acerca do arranjo que foi feito entre
nossos pais. Devemos nos casar.
Ele fez uma pausa, e como Cassandra no dissesse nada prosseguiu:
- Ento, miss Sherburn, deixe-me ir direto ao ponto. Ficaria sumamente
honrado se aceitasse ser minha esposa.
Cassandra ficou gelada. No acreditava no que ouvia. Varro no podia ter
dito aquilo! No podia!
Atravs dos culos escuros via o perfil dele, as linhas duras em volta da
boca.
"Ele pedia miss Sherburn em casamento! Ele mudou de ideia depois de ter
me deixado, e decidiu que o amor no valia o sacrifcio
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de perder sua herana, a casa que significa tanto na histria de
sua famlia. "
Cassandra no conseguia emitir um som sequer. Encarava o duque e lgrimas
comearam a correr-lhe pelas faces. Suas mos tremiam.
Sentiu como se o teto da casa desabasse sobre sua cabea, como se tudo em
que acreditara fosse reduzido a p.
Uma agonia intensa tomou conta dela.
O duque dirigiu-lhe ento a palavra:
- Venha c. Quero lhe mostrar uma coisa.
Ele conduziu-a da cadeira  mesa. Cassandra viu uma revista ao lado dos
dois lbuns.
- Veja isto - ordenou o duque. - Talvez seja melhor tirar esses culos
escuros para enxergar melhor.
Cassandra obedeceu e, cheia de curiosidade, olhou para a revista, um
exemplar de The Sporting and Dramatic. Na pgina aberta estava seu
prprio retrato. Embaixo tinha sido escrito: "Uma notvel cavaleira e um
tipo de beleza da alta sociedade de Yorkshire, miss Cassandra Sherburn".
O duque declarou:
- No podia deixar de reconhec-la, no acha, Sandra? Ou Cassandra?
- No consegui... contar nada a voc... ontem - soluava ela.
- Por que no? Queria me reduzir ao ltimo grau de humilhao, forar-me
a ajoelhar a seus ps?
- No! No! - exclamou Cassandra. - No foi isso!
-  claro que foi - retorquiu o duque. - Chega de mentiras! No
satisfeita com meu ttulo, quis tambm meu corao. Muito esperta!
- No! No! - gritou Cassandra de novo. - Eu...
- Quis me manobrar - interrompeu-a ele - como fui manobrado toda minha
vida. Primeiro por meu pai, depois por Carwen, e agora por voc. Bem,
dou-lhe os parabns, foi uma atriz melhor do que tencionava ser.
- Voc precisa... me ouvir. Precisa! No  nada disso. Quero mostrar-lhe
estes lbuns.
Ela abriu-os enquanto falava.
O duque olhou para os recortes de jornal pregados cuidadosamente nos
lbuns, mas no mudou a expresso do semblante.
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- H... algo mais - murmurou Cassandra.
Ela foi  escrivaninha. com mos trmulas, abriu uma gaveta e de l
retirou seu dirio. Mostrou-o ao duque numa determinada pgina, escrita
na vspera de sua viagem a Londres.
Ele aproximou o pequeno caderno da lmpada, para ver melhor.
Na caligrafia elegante de Cassandra estava escrito:
"Papai acabou de me contar que recebera uma carta do duque de Alchester.
Eu j havia pensado que, aps a morte do velho pai, ele mudara de ideia
sobre nosso casamento. Agora, por estar necessitando desesperadamente de
dinheiro, pretende continuar com os planos do pai.
Mas isso eu no posso fazer! Era o sonho de papai que eu me casasse com o
filho de seu velho amigo e que me tornasse uma duquesa.
Se tivssemos ficado noivos h dois anos, quando eu tinha apenas dezoito
anos, teria aceitado a opinio de papai neste assunto, como sempre
aceitei em outros.
Porm agora estou mais velha, e reconheo que agiria contra todos os meus
princpios casando-me com um homem que eu amo, mas que, estou certa, ama
outra mulher.
Sempre imaginei, por am-lo tanto desde meus doze anos de idade, quando o
vi numa competio de crquete em Eton, que ele tambm viria a me amar, e
que encontraramos a felicidade juntos.
Mas agora sei que foi um sonho de menina!
Meu amor por ele impediu-me de casar-me com qualquer dos pretendentes que
se aproximaram de mim.
Contudo, prefiro morrer solteira a sofrer a humilhao de me casar com o
duque, que s deseja meu dinheiro.
Seria mais fcil unir-me, se for o caso, a um homem por quem nutra
carinho, do que saber que Varro vai me beijar e me tocar s por
obrigao. Isso no poderia jamais suportar.
 melhor morrer a passar a vida sonhando com uma coisa bem diferente.
Quis dizer isso a papai, mas tinha certeza de que poria de lado meus
argumentos, a menos que eu pudesse provar que o du que amava outra
mulher. Eu sei que ele ama, sei que  uma artista do teatro de
variedades. Como Varro jamais confessar nada a papai, vou eu mesma
descobrir a verdade.
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Decidi ir a Londres e me encontrar com o duque atravs da sra. Langtry.
Fingirei ser uma pessoa pertencente ao mundo que ele ama, ao mundo do
teatro.
Todos dizem que tenho aspecto teatral. Se puder representar o papel de
uma atriz suficientemente bem para convenc-lo, descobrirei a verdade.
H outras herdeiras ricas ansiosas por lhe fornecer dinheiro em troca de
um ttulo, mas essa no sou eu. Por anos amei-o, no me importando se ele
era um duque ou um mendigo.
Agora vou descobrir a verdade e direi a papai que no posso me casar com
esse homem. Ele entender, estou certa.
No obstante sei que, nos anos todos que eu viver, jamais amarei um homem
como amo Varro.
O duque chegou ao fim da ltima pgina. Ouviu ento uma voz baixa,
gaguejando, vinda de algum atrs dele:
- Voc no est de joelhos... Varro. Eu  que estou. Por favor, por
favor, case-se comigo. Eu amo voc, tanto... tanto!
O duque virou-se e viu Cassandra ajoelhada com as mos postas. Deitava a
cabea para trs, a fim de encar-lo, os olhos cheios de lgrimas.
Mas no vendo mudana alguma no semblante rgido do duque ela soluou:
- Se voc no quiser se casar, torne-me ao menos... sua amante.
O duque ficou imvel. Inclinou o corpo em seguida, ergueua e abraou-a.
- Como ousa fazer semelhante proposta? - indagou ele com voz ainda
zangada.
Porm, colou os lbios nos dela, num beijo quase selvagem. Ao perceber
que o corpo de Cassandra cedia a seu abrao, e que uma chama de amor
queimava os dois, seu beijo ficou mais terno e ao mesmo tempo mais
possessivo.
Cassandra estava tonta de tanta felicidade.
O duque beijava-lhe as faces midas de lgrimas, os olhos, os lbios mais
uma vez, com uma paixo que a fez estremecer. Todo o corpo de Cassandra
correspondia ao fogo que consumia Varro.
Quando enfim o duque levantou a cabea, ela escondeu o rosto
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no ombro dele e sussurrou:
- Desculpe...
- Como pde agir to loucamente? S Deus sabe em que tipo de dificuldade
voc poderia ter se metido, se eu no estivesse l para proteg-la.
- Mas voc estava l - murmurou Cassandra. - E eu precisava descobrir a
verdade.
- Haveria melhores meios para conseguir isso do que fingir ser uma
artista, quando na realidade nem sabia que tipo de vida levava uma mulher
dessa categoria.
- Mas... consegui... engan-lo.
- Fiquei completamente desnorteado - replicou o duque.
- Apaixonei-me por voc quando se escandalizou com o cancan, naquela
noite na casa de Carwen, mas no pude entender sua reao. Como se
explicava que uma mulher com seu aspecto, de cara pintada, era to
inocente e ignorante das coisas mundanas? Isso escapava  minha
compreenso.
- Pensei que estava sendo fantstica em minha representao.
- Voc foi lamentvel, essa  a verdade! E deixe-me dizerlhe outra coisa:
se algum dia eu a pegar pintando os lbios, levar umas boas palmadas.
Entendeu bem?
Ele abraou-a com mais fora. E Cassandra sussurrou:
- Ento, vai se casar comigo?
- Penso no ter outra soluo - replicou ele sorrindo. Afinal, dormiu na
minha sute!
- Mas tranquei a porta.
- Porque eu mandei! - O duque riu muito. - Oh, minha querida, quando
penso como agiu mal e nos perigos a que se exps, fico horrorizado! Mesmo
agora me assusto em imaginar o que poderia ter acontecido.
- Eu sabia que estava segura com voc.
- Estar sempre segura comigo no futuro, querida, pela simples razo de
que nunca ficar longe de minha vista. Como seria possvel o contrrio,
sendo voc to linda! Mas vou castig-la por ter me enganado, e por ter
se portado mal.
- Como? - indagou Cassandra, apreensiva.
- Nos casaremos imediatamente e partiremos em longa luade-mel para a
Austrlia e depois para a frica do Sul. Voc no ter tempo, portanto,
de se exibir em Londres como a jovem
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 duquesa de Alchester.
- Que maravilha!
- Assim que voltarmos, poremos nossa casa em ordem para as futuras
geraes.
Cassandra no entendeu bem o sentido da frase. Depois, caiu em si e
corou.
- Quer dizer... - ela comeou a falar, hesitante.
- Quer dizer exatamente o que voc est pensando. E como, querida,
corando do jeito que est agora, esperou que um homem acreditasse que
fosse uma atriz? No entendo!
Beijando-a mais uma vez, ele acrescentou:
- Eu adoro voc! Tanto que no posso pensar em outra coisa.
-  como me senti por anos, Varro!
- Amou-me mesmo esse tempo todo?
- Desde que o vi pela primeira vez. Achei que havamos sido feitos um
para o outro. Voc no teve a mesma impresso, Varro?
- Senti isso quando pus os olhos em voc, na festa de Carwen - confessou
o duque. - Eu estava deprimido, preocupado, apreensivo sobre meu futuro.
A, enxerguei-a e tudo mudou de um momento para o outro.
- E nada mais foi importante para voc?
- Nada, meu tesouro, dinheiro, posio social ficaram sem significado
comparados a um amor como o nosso! Um amor que perdurar atravs dos
anos, at o fim de nossos dias.
- Eu adoro voc - murmurou Cassandra. - Adoro... com loucura.
O duque beijou-a at que ela se rendesse completamente. Cassandra no
ignorava que ele seria sempre o "cabea" da casa, e alegrou-se com isso.
Varro conduzia-a para a luz, para um mundo habitado apenas por eles dois.
- Voc me ama de verdade? - sussurrou Cassandra ainda duvidosa.
- Eu venero voc, meu tesouro. - Para sempre?
- At a eternidade, e alm dela.
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Cassandra deu um suspiro de pura felicidade! E os lbios do duque
eclipsaram todos os seus pensamentos.
Ela vibrava ao arrebatamento, ao xtase de um amor que era parte de Deus.
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                            *****

QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de
j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras d Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
